Otto Von Habsburg e o novo conceito de Monarquia

Otto Von Habsburg falecido em 2011 ,é considerado um dos mentores da União Europeia, onde ocupou cargo de eurodeputado, foi o último príncipe herdeiro da Austria Hungria de 1916 até a dissolução do império, em 1918 . Até 1921, foi o príncipe herdeiro da Hungria. Chefe da casa dinástica de Habsburg e pretendente aos antigos tronos da sua dinastia, Otto era o filho mais velho de Carlos I, último Imperador da Áustria e último Rei da Hungria, e bisneto de D. Miguel I de Portugal, sendo por consequência primo de D Duarte de Bragança.

“O lado mais interessante do desenvolvimento sociológico e tecnológico dos nossos dias é, como já vimos, o lento desaparecimento daquelas classes que no século XIX se fundavam nas desigualdades económicas (…) verificamos que também um novo fenómeno político começou a produzir-se.

E o novo fenómeno é este: as classes sociais começam a ser substituídas por castas. estas castas são uma consequência das grandes deslocações do Poder político.(…)

O domínio desta nova classe ou casta ultrapassa em muito o das classes do século XIX, visto fundar-se não só no Poder económico mas também no poderio político .(…)

O que vemos por toda a parte é a conquista do Estado por grupos de interesses privados e a utilização do do nome do Estado para a satisfação dos planos egoístas desses grupos (…)

Poís, logo também que declarei aos jornalistas estar a ideia monárquica na Europa a conquistar ,de novo, mais e mais terreno, a conversa ameaçou imediatamente recair só sobre: coroas, títulos, palácios, etc.. A isso tive de responder que tais coisas estão longe de nos dar a essência do programa monárquico; são sinais e símbolos exteriores da Monarquia , como o chapéu alto dos presidentes o pode ser da República , sem nos dar tão pouco a essência desta forma de governo. É manifesto que tais exterioridades só podem servir para lançar perturbação na discussão objectiva das ideias e dos princípios fundamentais , o que é preciso a todo o custo evitar .

Ora nós devemos compreender a ideia monárquica como aquilo que ela realmente é: uma doutrina política e uma forma mista de governo que assegura a continuidade deste e a existência de um Estado acima dos partidos

(…) A História, com efeito, ensina-nos que Roma, quando o sentimento das suas crescentes responsabilidades a impeliu para a Monarquia, conservou ainda para o exterior , por muito tempo, durante quatro gerações, a forma de uma República . Os seus soberanos que, pràcticamente , não eram senão monarcas, continuaram por largo tempo a usar dos títulos e a conservar os atributos republicanos.

Outro tanto se passa com as monarquias do século XIX que viveram dentro do ciclo republicano de ideias desse século. Também elas outra coisa não foram senão repúblicas coroadas. A realidade nelas era já republicana , digamos, embora na forma exterior elas continuassem a chamar-se monarquias.

(…) É de urgente necessidade a criação de um sistema político que evite o mais possível o perigo de formação de castas de que falei. É absolutamente indispensável erigir uma nova forma de governo misto. Digamos, numa palavra: é preciso descobrir um novo conceito de Monarquia (…)

Eis aqui o ponto crucial de todas as decisões a tomar na vida dos Estados europeus . Mas saibamos , acima de tudo, uma coisa : se permanecermos no terreno político enfeudados às formas constitucionais do século XIX , nenhuma resistência será possível contra essa irremediável formação de castas a que acima aludi. Nesse caso, o resultado será necessàriamente a cisão da sociedade de amanhã em duas camadas: para um lado uma classe polìticamente forte e dominadora , qualquer que seja o nome que se lhe der; para o outro a grande massa da população. Sem dúvida, quero crer, esta segunda camada gozará de um nível de vida mais elevado, mas estará privada do essencial no ponto de vista humano, ou seja da liberdade individual, reduzida a viver sob um novo regime feudal de que aliás já se vislumbram também alguns sintomas” Otto Von Habsburg, conferência proferida em Cambridge , 15 de Janeiro de 1959, in “A Monarquia na Era Atómica”, tradução para português de L. Cabral de Moncada

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