Lonergan e as abelhas honestas

O Texto seguinte é apenas uma proposta de enquadramento do modelo económico de Lonergan face às permissas que subjazem o pensamento económico ainda hoje.A história recente divide-se apenas em 3 fases: Liberalismo de Adam Smith, Liberalismo limitado de Keynes e neo-liberalismo de Hayek. As correntes económicas actuais são:

a) Neo-Clássicos, é o paradigma dominante no meio académico e representa a maioria dos economistas na actualidade. Baseado em Walras e no método particular como funcionavam os mercados franceses no sec XIX, usam modelos DSGE (modelos de equilibrio estocásticos – permitem choques nas variáveis fundamentais- e dinâmicos- permitem extrapolar ao longo do tempo a variação da economia-) e defendem a tendência dos mercados (todos) para o equilíbrio absoluto.

b) Pós-Keynesianos, minoria entre académicos e políticos. Tentam explicar a origem de crises e depressões. Vagamente derivado do Keynesianismo rejeita os fundamentos de microeconomia usados pelos neo-clássicos e austriacos (contestam o principio de maximização de utilidade pelos indivíduos em favor de expectativa destes sobre o futuro, lidar com a incerteza e contestam a busca de lucro pelas empresas como factor determinante em favor de um “espírito animal”), contestam o equilíbrio absoluto dos mercados, introduzem dinheiro e sector bancário nos modelos. As maiores referências são Fisher e Minsky

c) Libertários (escola austríaca) , paradigma dominante entre políticos, uma minoria entre académicos. Ganhou notoriedade durante a década de 70 do sec XX. Baseado na Escola de Viena durante o sec XIX e no pensamento de Carl Menger, o seu maior proponente foi Hayek .

Da Escola austriaca (de onde adveio Polanyi) sairam várias tentativas de reformular o liberalismo que geraram várias corrente. Os libertários diferem dos neo-clássicos pela questão sobre inovação e choques tecnológicos que alterem fundamentalmente o capitalismo, diferem pela defesa de que o mercado nunca está em equilíbrio (factor que leva ao empreendedor a procura de novos processos para atingir o equilíbrio, gerando inovação, opôem-se ao uso de modelos matemáticos (crítica a uma procura de igualar a Economia à Física porque a mente humana é impermeável a modelos matemáticos) , defendem a procura individual de lucro numa forma agregada o que justifica a ausência de acção por parte do Estado. A Maior referência actual é Schumpeter

e) Comportamental, minoria residual, estão muito presentes nos media focam-se na evolução do capitalismo rejeitando a permissa de que os agentes agem racionalmente . Baseado em Marx vêm o socialismo como último estágio da sociedade e o capitalismo como forma de exploração do trabalho. Valor não é a utilidade obtida pelo agente mas o esforço de produção, Focam-se na luta de classes e defendem que todo o lucro advém do trabalho sendo que a taxa de lucro diminui à medida que o trabalho é substítuido por maquinaria.

f) Ecologistas ou evolucionistas, minoria em crescimento. Focam-se no impacto para o ambiente do aumento de produção . Rejeitam o modelo de equilíbrio dos neo-clássicos porque se focam nas mudanças num conteto evolucionista que anula o conceito de equílibrio e defendem o limite de crescimento. Referências: Herman Daly e Dennis Meadows

g) Economistas de género e étnia. Referências: Marilyn Waring e Julie Nelson

h) econofísicos. Minoria residual ,têm no entanto uma grande representação nos mercados financeiros (construção de modelos de risco) . Focam-se na ligação entre fenómenos económicos e fenómenos físicos ao nível dos modelos matemáticos. Rejeitam a eficiência dos mercados e a noção de equilíbrio defendida por neo-clássicos

 

O interesse de Bernard Lonergan assenta sobre os problemas que minavam o pensamento económico do sec XX, no contexto de um quase total vazio de reflexão sobre organização económica das sociedades a abordagem económica de Lonergan surge como caso isolado .Assente nos princípios de justiça social católica: subsidiariedade, solidariedade e responsabilidade onde o individuo e a comunidade surgem, não isolados, mas imersos no mesmo contexto cultural com graus de relação recíprocos . Lonergan mantém-se fiél à experiência do que leva sociedades ao colapso. A imersão dos católicos na luta política na viragem do século não evitaria o nascimento de ditaduras, no mesmo sentido que o seu surgimento não poria em causa os modelos de Economia clássica, para todos os efeitos Adam Smith permaneceria actual até 1929 e só a entrada da II Grande Guerra traria o último prego ao liberalismo nas economias mais relevantes. No entanto o modelo económico de Lonergan não seria um modelo de macroeconomia durante todo o tempo em que trabalharia sobre ele. Permaneceu sempre um modelo essencialmente de microeconomia, um modelo focado na relação entre trabalhadores e empresas, não por debate com Marx mas porque Lonergan entendia que uma sociedade deveria tender para que fosse totalmente compreendida pelos seus agentes. Lonergan vai além de Marx ao diluir a divisão absoluta entre trabalhadores e empresários ,incluir a cultura como parâmetro do modelo e discutir o impacto de inovação tecnológica numa sociedade onde seria possivel um crescimento progressivo focado na produção de bens

É um modelo atípico onde o Estado é uma propriedade emergente do modelo que descreve comportamentos totalmente racionais dos seus agentes, assente na ideia da perseguição do conhecimento pelos seus agentes num comportamento com características de egoísmo e valores comunitários onde o ênfase sobre trabalho produtivo e industrias produtivas complementares é total.

Liberalismo

Não quererá isto significar que o velho confronto entre Platão e Aristóteles não permanece activo nem que a perseguição da felicidade que tanto animava Leibniz não permanece actual. De facto o Neo-Liberalismo que tanto se transveste como representante do socialismo católico na actualidade, tem profundas e largas raízes na perseguição individual do lucro (felicidade para alguns, dificilmente um conceito universal mas verdadeiramente uma virtude contemplativa). Podemos ser iludidos pelo principio que fez de Friedrich Hayek uma pedra angular da Economia recente (desde os anos 70) : de que as instituições emergem do conjunto de acções individuais, acção que seria impossivel para um Estado, logo ao Estado cabe criar as condições para a maior liberdade individual. Mas a ilusão não impede à memória evocar a histórica autocrítica literária de um poeta amador: Bernard Mandeville com a sua “Fábula das abelhas” (1714) que nada mais é do que a defesa da corrupção dos individuos, na célebre frase “vícios privados, benefícios públicos”, como factor primordial para o crescimento de uma sociedade. Adam Smith haveria de pegar no caso das abelhas de Mandeville para explicar a famosa “divisão do trabalho”

A Importância de Mandeville para o Liberalismo não é casual nem intelectual mas política. A “Fábula das Abelhas” é uma contestação à obra de Lebniz e a influência que Colbert (crescimento a partir da gestão da balança comercial,) poderia ter trazido a uma Inglaterra que havia feito da “Revolução Gloriosa” o padrão do modelo económico a seguir. Dialéctica e matemática foram sempre dois pilares da teoria económica e se o Tratado de Methuen que marcaria o atraso industrial de Portugal , marcaria a politica económica externa de Inglaterra. Aos intelectuais havia ainda a necessidade (128 anos depois) de explicar com números o caso estranho das “vantagens competitivas”, caso que permanece por entender (316 anos depois).

O caso do Tratado de Methuen explica-se como a “prova de conceito” do Liberalismo enquanto instrumento de política externa. Para entender a relevância de Adam Smith é preciso primeiro assumir que o Liberalismo foi antes de tudo um instrumento de política e a teoria clássica económica um componente da guerra económica.

“homens prácticos ,que acreditam estar imunes  de qualquer influência intelectual, são normalmente escravos de um qualquer economista defunto” John Mayard Keynes

Shumpeter faria uma crítica de adam Smith sobre a sua indulgência ao sentimento político da altura que favorecia o “livre comércio, laissez-faire, política colonial e por ai adiante” face ao seu pouco sucesso em Inglaterra face a um outro economista , James Steuart que publicaria o “Uma Investição sobre os Princípios da Economia Política” 9 anos antes de Smith.  Smith defendia que a divisão do trabalho  favoreceria a economia, afinal a especialização e consequente renumeração do operário diminuiriam em inversa proporção com o número de divisões do processo até ao ponto que qualquer analfabeto poderia substituir um artesão , evitando assim que um único operário pudesse ser concorrrente do empreendedor, fórmula perfeita para inibir o desenvolvimento em qualquer economia que estivesse num estádio inferior de desenvolvimento. Lonergan introduziu o paradigma da inovação de Schumpeter como factor de crescimento acentuando a importância da produção de bens finais (e bens “overhead” que distinguem a super-estrutura cultural da sociedade) e o seu somatório e relação como o único factor de crescimento, onde as propriedades emergentes (probabilidades) do processo se tornam factores endógenos do mesmo, impulsionando a economia e a cultura tornando os seus habitantes maior consciência do processo.

Longe vão os tempos onde o pensamento escolástico dominava a reflexão económica, mas a predominância do que existe sobre o potencial tornou a reflexão sobre este tema desactualizada e vulnerável perante um mundo que se expandia geográficamente impedindo e falindo a relação orgânica que permeava as sociedades do sec XVIII. A explosão de nacionalismos republicanos na Europa durante o sexc XIX pôs em evidência as falhas do Liberalismo, a livre circulação de capitais era o carvão que alimentava todo o tipo de movimentos de acção terrorista (de génese questionável e ambições deslocadas) e foram um dos primeiros factores a impedir o desenvolvimento potencial da Europa continental, a fuga do Papa Pio IX de Roma (1849) e a sua proclamação como República por “combatentes da liberdade” liderados por Guiuseppe Mazzini a par com a  liquidação dos Estados Papais (questão Romana, 1861) afastaram os católicos da luta política.  Em 1864 Pio IX publicaria a “Quanta Cura” (uma crítica ao Liberalismo) anexada por um Syllabus com a descrição dos erros que não mereciam perdão. Em 1870 o Concílio Vaticano I criticaria todos os fundamentos da nova ordem económica, 1891 o Rerum Novarum surgiria como um manifesto de acção política para os católicos. o Enfoque no combate ao movimentos nacionalistas na sua base de apoio em deterimento de os compreender como consequência de um modelo económico desajustado da realidade faria perder o palco do debate. O Liberalismo com as suas noções de equilibrio automático, perseguição individual do lucro e livre circulação de capitais durariam até à década de 30, a qual veria outra corrente de liberalismo: Liberalismo limitado (embedded Liberalism) com o surgimento de Keynes.

Liberalismo limitado

O termo “embedded Liberalism” tem o seu baptismo em 1982 (irónicamente 2 anos depois de ter sido suplantado pelo Neo-Liberalismo) por John Gerard Rugie . Ruggie escreveria que teria copiado a expressão de Karl Polanyi . O periodo de 1944 até 1980 , a era de ouro da economia, era uma reacção das sociedade às ineficiências do liberalismo. Para Keynes os Estados não podiam ausentar-se das consequências para a sociedade de um mercado desregulado.

Karl Polanyi defendia que a transição da economia de base liberal para uma de embedded liberalism seria apenas uma fase de um ciclo que teria as raízes na Revolução Industrial. Para Polanyi até ao sec XIX os mercados estaria embebidos nas sociedades onde operavam, subordinados às: relações sociais, Instituições religiosas, tradições de reciprocidade e distribuição de recursos. Mercados eram meios pelos quais relações sociais eram exprimidas, não sendo fins em si próprios .A conceptualização clássica de Adam Smith era uma resposta filosófica a este principío, as sociedades humanas deveriam estar subordinadas ao mercado. Esta crença de que os mercados são auto regulados e existem fora do tecido social espalharam-se rapidamente e pela primeira vez na História os mercados seriam entidades separadas da sociedade e com primazia sobre estas. Polanyi identifica a transição em 1844 com legislação (“laws relating to poor” 1944, do movimento anti-pobreza de 1934 até 44) a regular bens que até aí não eram considerados bens (pessoas, terra e dinheiro) . Polanyi considerava que transforma-las em bens conduziria as sociedades ao abismo.

“labour is another name for human activity, which goes with life itself, which in its turn is not produced for sale but for entirely diferent reaosns, nor can that activity be detached from the rest of life, be stored or mobilized (…) None of them [labour, land, money] is produced for sale” Karl Polanyi, The Great Transformation

Para Polanyi a comodificação da vida era não só uma utopia como impossivel porque as sociedades reagiriam num processo baptizado como “duplo movimento”. Lonergan recorreria à mesma explicação para explicar o surgimento do Fascismo como uma reacção natural da sociedade e introduziria-o no modelo económico ao nível da aceleração de industrias face a inovação, a probabilidade emergente no sentido restrito que North Withehead como localizadas e dependentes do momento (conceito inovador em economia porque invalida considerações gerais a partir de um conjunto de dados isolados no tempo e invalida o princípio da causalidade)

A crise de 1929 explica-se resumidamente com Lonergan, como uma questão de ignorância dos agentes. Um mercado não-regulado onde as expectativas sobre o futuro estão assentes nas expectativas individuais dos agente, que em larga escala se reduzem a infinitas expressões individuais de hedonismo. Dois economistas influenciariam Lonergan, Schumpeter e Heinrich Pesch, duas expressões da crítica à Grande Teoria que se propunha a ser o modelo universal do funcionamento da Economia, Lonergan tenta a actualização do último com o conceito de inovação como motor de crescimento prescindindo da dialéctica como método explicativo em favor de modelos matemáticos que explicassem com maior aproximação a realidade económica, processo que Lonergan haveria de abandonar nos últimos anos retornando ao processo dedutivo.

A emergência da análise matemática nos modelos económicos é consequência directa da escala e natureza dos mercados, especialmente dos mercados que dependem de um equilíbrio entre oferta e procura, se wall Street hoje é apenas uma sala para entrevistas e exposição porque todas as operações dependem de algoritmos processados por supercomputadores em armazéns ligados por fibra óptica por forma a minimizar o equilíbrio de compra e venda ao milésimo de segundo, a 24 de Outubro de 1929 as ordens de compra e venda estavam distanciadas em várias horas e esta é a razão mais comum para justificar o “Crash”. Economistas mais sérios afirmariam que se tratou de uma desregulação do mercado financeiro largamente provocada por um governo (EUA) que geria um orçamento excedentário provocado entre os agentes a procura da moeda ,retida nos cofres federais , junto do sector financeiro que cobraria taxas de juro superiores à taxa de crescimento real da Economia. Keynes viu este fenómeno como um problema de queda na procura (gastos das famílias).

Entre as três perspectivas sobre a queda de 1929 os governos optariam pela contenção dos movimentos sociais, mas se esta abordagem demoraria até 1944 entre os governos o Vaticano anteciparia-se com a carta enciclíca Quadragésimo Anno (40 anos sobre a Rerum Novarum) , a qual teria como inspiração o pensamento de Pesch (influência que perduraria até João Paulo II) . É nesta linha directa de pensamento que o trabalho de Lonergan em 1942 no “For a New Political Economy” e o “An Essay in circulation analysis” de 1944 pode ser entendido :

“necessidade de ter um elaborada conceptualização para o seu estudo [das ciências humanas] similar ao que a matemática disponibiliza para a Física” Lonergan , Tópicos em educação

 Neo-Liberalismo

 

 

Conclusão

A relevância actual de Lonergan é dificil de medir, se por um lado não houve um seguimento do seu trabalho por outros investigadores na área, por outro a década de 80 formou a escola austriaca como modelo a seguir pela elite política e académica .Apesar da predominância dos neo-clássicos nos livros de texto e programas curriculares são os seguidores de Hayek e Friedman que colhem as maiores verbas e prémios nobél, caso que permanece apesar da falência dos seus modelos com a crise de 2008. Apesar do modelo de Lonergan ser , nos seus fundamentos,uma revisita ao mercantilismo de Colbert, é antes disso uma actualização do paradigma económico que reflecte sobre as limitações conceptuais do liberalismo que prejudicam o funcionamento de um mercado onde os seus agentes podem procurar o equilíbrio com a devida liberdade de um Estado planificador e tendencialmente autocrático. A aceitação do Liberalismo tão criticado pelos católicos durante o sec XIX e dos fundamento delineados por Smith advém do facto de no essencial (sem prejuízo das motivações políticas de Estado que o fundamentaram) ser uma crítica à economia de renda massificada pela França de Luís XIV, uma actualização do feudalismo.

A sua relevância enquanto base de trabalho para actualizações futuras advém da realidade histórica de o Liberalismo não ter eliminado a Economia de Renda e o trabalho recente de Thomas Piketty é apenas uma constatação de que a acumulação de riqueza gera distorções que corroem o tecido social de uma sociedade, não por razões de classe social ou perseguição da acumulação de riqueza mas porque a forma como riqueza é gerada e mantida é um factor determinante (apesar de desconsiderado nos modelos económicos até há pouco tempo) na coerência entre a realidade e o modelo económico. Se os “economistas” da Europa medieval se preocupavam com o fenómeno de o juro ultrapassar o capital ou os Assírios publicavam periodicamente perdões de dívida, o paradigma romano de tornar infinita a capitalização de juro tornou-se uma externalidade que fragilizou um Império sempre à beira da Guerra cívil e mais tarde um valor cultural que esticava sempre a quantidade de riqueza gerada superior à quantidade de bens e serviços produzidos, estivessem estes representados em ouro ,pimenta, prata ou dollares. Não é por acaso que Lonergan dá absoluta primazia à educação e conhecimento como modeladores das expectativas de uma sociedade .

A Crise de 2008 e o programa de resgate do sector financeiro, 3 vezes superior ao New Deal em termos monetários e várias vezes superior em escala geográfica veio trazer a público a falência , não dos modelos mas, do paradigma e das permissas que sustentam a acção dos agentes económicos, sejam eles indivíduos ou governos . Lonergan tinha razão, os bens públicos (como educação) não acrescentam valor concreto a uma sociedade que não tem as industrias onde utilizar essa mão de obra especializada, a sua exportação a custo zero para economias mais fortes é a súmula do pensamento de Adam Smith sobre como impedir uma economia de evoluir sob a ilusão de que está mais rica. A Europa reexporta e mantém o seu nível de vida sobre produtos importados da China a custo muito reduzido (porque subvencionado pelo Governo ) e esquece que os marcadores que escrevem equações diferenciais para milhares de jovens ávidos de qualificação , ninguém sabe ou tem a estrutura para a fabricar no País

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