Intervenção de D Duarte de Bragança no Ciclo de Conferências da Madeira ao Mundo: 600 Anos de Globalização

Intervenção de Sua Alteza Real o Senhor Dom Duarte no Ciclo de Conferências da Madeira ao Mundo: 600 Anos de Globalização, no dia 2 de Novembro em Porto Santo.
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“As Comunidades Luso-descendentes da Ásia e a sua ligação à Diocese do Funchal”.

«Fiquei muito sensibilizado com o convite para participar no acontecimento de tão grande importância simbólica na História de Portugal.

Vir falar à terra onde começou a epopeia das Descobertas e a primeira grande globalização cultural, é de uma enorme responsabilidade.

Seria pretensioso da minha parte concorrer com ilustres historiadores e especialistas aqui presentes e, por isso, limitar-me-ei a tecer umas considerações derivadas da minha experiência pessoal adquirida com os contactos que fiz com as populações luso-descendentes por esse mundo fora.

A Fundação Dom Manuel II, de que sou Presidente, vem acompanhando comunidades minoritárias de luso-descendentes, em especial na sua dimensão cultural e na preservação e promoção da sua matriz identitária.

Tive oportunidade de visitar algumas destas comunidades e de receber o apoio pioneiro de entidades, como a Presidência da Região Autónoma da Madeira, no apoio à Comunidade luso-descendente de Malaca.

Estou firmemente convencido de que tem sido particularmente clara a solidariedade desta Região Autónoma em relação aos seus núcleos de emigrantes, também eles comunidades minoritárias, bastando recordar os casos da África do Sul e, mais recentemente, os angustiados milhares de Madeirenses radicados na Venezuela.

O convite que me endereçaram para conversar convosco neste Ciclo de Conferências Da Madeira ao Mundo: 600 Anos de Globalização permite-me ajudar-vos a recordar que esta ligação, e esta atenta solidariedade, (que talvez não constituam uma regra geral na conjuntura presente), se encontra inscrita na génese, e no ADN histórico da Madeira.

Nunca deixou de ser actual, mas neste preciso momento torna-se particularmente urgente reflectir sobre os ciclos de luta pela preponderância que têm vindo a caracterizar as relações entre as chamadas religiões do Livro.

Recuando seis séculos, os responsáveis pela expansão portuguesa do séc. XV, e seguintes, mostraram estar conscientes de que as suas explorações estavam a alargar o espaço cristão, criando condições para que a nossa Fé se espalhasse para lá das fronteiras anteriormente estabelecidas, e chegasse efectivamente a todo o mundo conhecido e ao mundo por conhecer, seguindo a doutrina do Quinto Império ou Império do Divino Espírito Santo.

É curioso verificar que esta actividade se enquadrava em geral naquilo que se pode denominar como Teologia da Cristandade, que perdurou em parte até ao séc. XX, e em conformidade com a qual a acção missionária visava, acima de tudo, a aculturação, a superação de outras crenças e formas de vida, para que aceitassem o modelo ocidental.

Os madeirenses participaram no povoamento das ilhas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, cujas igrejas dependiam inicialmente da diocese do Funchal, e estes arquipélagos vão servir de ponto de apoio às viagens de comerciantes e missionárias para a costa do Brasil e no caminho marítimo para a Índia.

A evangelização centra-se mais na edificação de igrejas, onde se instalaram colonos portugueses, do que em promover a conversão dos muçulmanos ou outros africanos.

Só a reforma interna da Igreja, após o Concílio de Trento (1545-1563), e a actividade da Companhia de Jesus lançaram uma acção missionária orgânica e sistemática, com novos modelos de evangelização.

A Diocese madeirense acabaria por ser criada numa fase de transformação de atitudes e mentalidades, quando sociedades fechadas começaram a viver uma aventura global, nas caravelas da expansão marítima.

A este respeito, os portugueses, pioneiros nas descobertas, distinguiram-se da coroa castelhana, que optou pelo que se poderia designar como dioceses de conquista, ligadas à ocupação do território das Américas.

Já o desenvolvimento de uma estrutura diocesana nas áreas submetidas ao império português foi-se processando de acordo com o ritmo da própria evangelização.

Foi precisamente no quadro do confronto com o Islão, motivado pelo domínio do espaço mediterrânico, que D. João I escreveu ao Papa em 1418, solicitando-lhe uma bula de cruzada para todo os que desejassem coadjuvá-lo na prossecução da luta contra os “infiéis”, e em Abril desse mesmo ano Martinho V emitiu três bulas. Numa delas, a Rex Regum, determinava o reconhecimento implícito para Portugal da praça de Ceuta, bem como das outras povoações e territórios que se viessem a tomar.

Confirmavam-se deste modo as pretensões lusas de prosseguir as conquistas no norte de África, ao mesmo que confirmava juridicamente a conquista. Estes sucessos políticos e militares ficaram a dever-se aos filhos de D. João I e da Princesa Inglesa Filipa de Lencastre, que hoje são conhecidos pela Ínclita Geração.

A Rainha D. Filipa deu muita importância à formação cultural dos seus Filhos, e todos eles foram, de facto, personalidades notáveis na Europa da época.

O Infante Dom Henrique foi o primeiro responsável político pela Região. O primeiro Governo do Funchal, depois da recente autonomia teve a muito feliz iniciativa de pôr a cruz da Ordem de Cristo na bela bandeira regional, por ser o Infante D. Henrique o Grão-mestre desta Ordem, directamente sucessora da Ordem dos Templários.

Já nas zonas descobertas, particularmente onde não se verificava a presença islâmica, o título de posse, concedido pela autoridade da Santa Sé, associou-se a uma obrigação explícita de se proceder a uma missionação efectiva. Na prática, a missionação cristã iria justificar a presença e a acção daquilo que hoje em dia costuma designar-se como potência colonizadora.

Tendo presente a prioridade da descoberta da Madeira o poder régio surgia assim ligado à missionação, sendo-lhe confiada a evangelização das novas terras descobertas a partir deste arquipélago, que passava a representar uma porta aberta para a Europa sobre um mundo novo, com jurisdição sobre todos os territórios descobertos pelos portugueses além-mar ao longo da costa africana até ao Oriente, englobando depois o Brasil.

Desde o início do povoamento, a Igreja Católica na Madeira actuou num clima missionário, que se foi actualizando ao longo dos tempos. Mais concretamente estabelecendo uma ponte entre a comunidade recém-instalada, aqueles que partem e os que passam, oferecendo à cristandade global um novo enquadramento geográfico e espiritual.

O arquipélago converteu-se num ponto de escala e abastecimento no corredor atlântico. E concomitantemente afirmou-se como polo de difusão e estruturação do Cristianismo no mundo ultramarino.

Estas valências desenvolveram-se a partir de uma sociedade cristã que trouxe para a Madeira as suas tradições do continente, embora seja forçoso reconhecer, que as suas características ganharam uma configuração singular por força das condições do território e do esforço pioneiro de construir de raiz uma sociedade nova.

A preocupação missionária surge desde o primeiro momento, como atesta o Elucidário Madeirense ao falar de Gonçalo Anes ou Gonçalo Anes de Velosa, fundador da igreja de São Bartolomeu, junto da qual instituiu um hospício para clérigos pobres, que como se pode depreender, servia para alojamento dos missionários que paravam na Madeira e se dirigiam para a Índia e para o Brasil.

Talvez não tenha sido por mera coincidência que os jesuítas se vieram a instalar em 1570 nesta casa e igreja.

Quem viu o filme, ou leu o romance, “A Missão” não pode deixar de ficar emocionado ao perceber a técnica seguida pelos Jesuítas de integrarem o Cristianismo nas culturas locais, ao contrário de outros missionários que se esforçaram por alterar profundamente as culturas dos povos que iam cristianizando. Na China, Japão e Índia os sacerdotes Jesuítas vestiam-se com trajes de religiosos locais, além e integrarem outros elementos culturais, tendo até dado origem a queixas de autoridades católica. (Foi o caso controvérsia dos “ritos chineses” que foi utlizada como uma das razões mais invocadas para a extinção da Companhia de Jesus no século XVIII).

Em Goa os Jesuítas criaram um instituto universitário dependente da Universidade de Évora e institutos de ensino superior surgiram por sua iniciativa em várias regiões do ultramar português, como por exemplo, em Angola, Brasil, em São Paulo, e na região de Tête em Moçambique.

Imaginem o que seria o desenvolvimento cultural desses países hoje se esta extraordinária obra não tivesse sido brutalmente interrompida pelo fanatismo político pombalino.

A mentalidade do “despotismo iluminado” apoiado no “absolutismo real” do tempo de D. José I ainda hoje é glorificada nos livros de História de todo o mundo e o Marquês de Pombal foi homenageado com o maior monumento produzido pela 1ª república portuguesa.

Quem visitou o Pavilhão de Portugal na Expo 98 fica com a imagem de que no fim toda a obra portuguesa naufragou. No entanto, quem se der ao trabalho de procurar as Comunidades Luso-descendentes na Ásia ficará impressionado com a força das memórias portuguesas que por lá encontra.

Eu visitei com a minha família a Comunidade “Portuguesa” de Banguecoque, onde cerca de 20 mil pessoas se afirmam luso-descendentes, são católicos e têm um grande prestígio social.

A principal Igreja que merece ser visitada por quem lá for é a Igreja da Conceição, no antigo Bairro Português, obviamente junto ao Rio, por onde chegavam as naus portuguesas. Eu visitei esta Comunidade em 2017, por ocasião da nossa oferta da imagem da Imaculada Conceição à Paróquia do mesmo nome.

Na Birmânia, hoje chamada Myanmar, há sete pequenas cidades predominantemente de descendentes de portugueses, conhecido como Bayingyis.

Foram como militares, mas ao contrário do que sucedeu na Tailândia, antigo Reino do Sião, – onde os Portugueses durante gerações organizavam as forças armadas locais, conhecidos especialmente como sendo os melhores artilheiros, – são hoje agricultores, com algumas excepções, como é o caso do actual Cardeal de Ragun.

No Sri Lanka, antigo Ceilão, uma comunidade de cerca de 40 mil pessoas é descendente de Portugueses, os chamados os Portuguese Burghers, que adoptaram nomes de família portugueses quando os antepassados se converteram ao Catolicismo. A minha Mulher e eu esperamos visitar esta Comunidade no próximo ano.

A presença dos Luso descendentes na Ásia também é muito forte em Goa, Damão, Diu, Macau. Mas o caso mais curioso é o da pequena comunidade do Bairro Português de Malaca, Kampung Portugis, que sobreviveu à violenta ocupação holandesa, mantendo sempre a sua fé e a sua ligação cultural e afectiva a Portugal.

Eu visitei esta comunidade em 2015, para entregar, em nome da Fundação D. Manuel II, um sino em bronze, para substituir um mais antigo da Praça principal que se tinha quebrado.

E foi precisamente no Bairro Português de Malaca que em 2016 se realizou a a 1ª Conferência das Comunidades Luso-asiáticas, na qual a Fundação D. Manuel II está representada»

 

(https://fundacaodommanuel2.wordpress.com/).

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