Sem Rainha, mas com roca

1º Dama, um cargo estranho

Michel Verpeaux, um dos mais respeitados especialistas em Direito Constitucional do país, ressalta que as atividades oficiais da esposa do presidente são uma herança da monarquia .Para Armelle Le Bras-Chopard “A primeira-dama não tem nenhuma legitimidade democrática. Ela é simplesmente a esposa de alguém que foi eleito, e por consequência ela pertence à esfera privada e não deveria ter funções públicas.”.

Um cargo político inexistente ,que tem dotação orçamental e pretende representar no essencial aquilo a que a República se propós a erradicar

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O recente escândalo que resultou na separação do presidente francês, François Hollande, de sua companheira, Valérie Trierweiller, levantou o debate sobre a relevância do papel da primeira-dama. A história mostra que os países onde o poder é mais concentrado nas mãos do presidente são os que ainda dão um lugar de destaque para a mulher do governante.

Desta forma, França e, principalmente, Estados Unidos ainda destacam funções para as primeiras-damas, em geral ligadas a atividades humanitárias e sociais.

Já nas monarquias, as atenções voltam-se para a Família Real enquanto que a esposa do primeiro-ministro pode manter uma vida quase desvinculada do poder. Este é o caso da Espanha, Itália, Grã-Bretanha e dos países nórdicos.

A exposição da vida privada de Hollande agora faz a França novamente questionar o papel da primeira-dama, um posto considerado por muitos políticos e intelectuais como ultrapassado. O assunto já tinha dado o que falar na época de Nicolas Sarkozy, que em menos de um ano se divorciou e casou com uma ex-modelo e cantora, Carla Bruni.

Armelle Le Bras-Chopard é cientista política e autora do livro Première-Dame, Second Role (Primeira-Dama, Segundo Papel, em tradução literal). Para ela, o status de primeira-dama precisa acabar. “Eu acho que o que acontece na França é que nós somos uma ‘monarquia republicana’, como se diz. Uma vez que o presidente tem muito poder e não temos rei, as atenções se voltam muito mais para o Eliseu e a presidência da República”, afirma. “A primeira-dama não tem nenhuma legitimidade democrática. Ela é simplesmente a esposa de alguém que foi eleito, e por consequência ela pertence à esfera privada e não deveria ter funções públicas.”

Michel Verpeaux, um dos mais respeitados especialistas em Direito Constitucional do país, ressalta que, embora as esposas dos presidentes encarnem funções no governo, elas não têm qualquer status jurídico oficial. Ainda assim, as francesas dispõem de um escritório e de uma equipe de cinco funcionários. “No orçamento do Eliseu, nunca foi proibido dar uma parte para uma pessoa próxima ao presidente. Digamos que é como se fosse uma espécie de conselheiro especial do presidente da República. De qualquer forma, não há nada regulamentado neste aspecto”, explica.

Funções em mutação

Verleaux destaca que as atividades oficiais da esposa do presidente são uma herança da monarquia. Logo que a França instalou a 5ª República, após a Segunda Guerra Mundial, os costumes evoluíram – mas a mudança não durou mais do que algumas décadas.

Inicialmente, as primeiras-damas não tinham qualquer atuação. “Por exemplo, madame De Gaulle, esposa do primeiro presidente da 5ª República, tinha um papel muito discreto. Ela nunca chamava a atenção e nunca quis ter um papel político”, recorda. Ele lembra que a situação começou a mudar com as mulheres de François Mitterrand e de Jacques Chirac. “Danielle Mitterrand tinha convicções políticas muito fortes, e em alguns casos houve momentos de tensão porque suas posições íam de encontro com as do presidente. Já Bernadette Chirac quis, tão logo seu marido foi eleito, ou até antes, entrar na política, e foi eleita para a administração de um departamento francês.”

A pesquisadora lembra que a visão sobre o assunto muda quando é a mulher quem está no poder: ninguém se interessa pelo marido da chanceler alemã, Angela Merkel, e na Austrália a presença do marido da ex-premiê Julia Gillard em eventos oficiais era mal-vista. “A primeira-dama tem um papel determinado pela tradição, e manter o papel dela acaba se tornando uma coisa sexista. Isso porque se considera que a mulher deve permanecer à sombra, acompanhando os traços do seu marido, e que não existe por ela própria”, diz.

Segundo uma pesquisa recente, 54% dos franceses deseja que o status de primeira-dama seja definitivamente abolido.

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