Monarca, o representante sem Poder

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“Existe uma metafísica da representação política que determina tudo, sem
jamais ser dita ou explicitada. Qual é este mistério teológico, esta operação
alquímica, que faz com que a nossa soberania, num domingo a cinco ou sete
anos, atravesse as urnas e surja à noite nas telas da televisão com a
fisionomia dos “representantes do povo” ou do Representante do povo, o
monarca intitulado “presidente”? Cornelius Castoriadis

Para Castoriadis, a figura do representante universal  e permanente faz com que a atividade e a iniciativa políticas sejam retiradas dos  cidadãos e transferidas ao corpo restrito de indivíduos que exercem seus mandatos  à distância daqueles que, em princípio, representam e formam um corpo social separado do resto da sociedade. O monopólio do poder por parte de um grupo específico imprime à democracia moderna as feições do que tradicionalmente se chamaria de oligarquia .
A ideia do especialista em política é outra noção que não faz parte do  imaginário político grego, que vê na democracia o domínio da dóksa, da opinião e da persuasão: as posições eram debatidas e decisões tomadas na ekklesía, assembleia, e não por um grupo restrito de técnicos. A figura do  especialista, do perito em alguma coisa, só era requisitada em questões que exigiam  um saber técnico, entretanto cabia à assembleia a decisão final. “Assim, explica Platão no Protágoras, os atenienses receberão conselho dos técnicos acerca da adequada construção de muralhas ou de navios, mas ouvirão toda e qualquer pessoa sobre assuntos de política” (Castoriadis, 2002a, p. 306)

O primeiro a romper com a ideia de que a política é o domínio da opinião e não de um saber especializado foi Platão, que identificou o homem político ao homem régio, numa época em que Atenas não tinha rei e que, em Esparta, os dois reis não tinham nenhum poder. Platão qualifica a política de epistéme, ciência, e faz do político aquele que, possuindo essa ciência, é o mais apto a governar (Cf. Castoriadis, 1999d, p. 57 / 2004c, p. 72).

Na Modernidade, porém, essa ideia é dominante. No entanto o especialista em política que deveria substituir o comum dos
cidadãos é, para Platão, o filósofo, justamente aquele cujo saber depende de um afastamento relactivamente à vida quotidiana

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