O dia em que as Capelas Imperfeitas ruiram

Dois remates de pináculo com 100 Kg cada, um da fachada do portal principal, outro da fachada da porta lateral, caíram do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, pondo em risco o valor do Monumento como Monumento Mundial pela UNESCO.

Um sinal de que aquilo que as capelas imperfeitas significam já nada tem a ver com o Portugal do sec XXI

A entrada para uma Identidade que Portugal parece ter esquecido

A simples notícia de estragos no Mosteiro da Batalha é o suficiente para gelar a consciência de qualquer português que conheça o peso que o edifício tem na consciência colectiva.O Monumento é uma afirmação em pedra da II Dinastia e a sua construção ,que se seguiu à vitória de D. Nuno Alvares Pereira em Aljubarrota, prolongou-se por gerações e que permanece ainda hoje por terminar nas Capelas Imperfeitas, um testamento em vida do Monarca D. Duarte I .

Poucos Países podem-se de dar ao luxo de ter nas sua História monumentos que materializem a história da Nação como um plano concebido e idealizado.Monumentos que justificam e ampliam os fundamentos da nacionalidade.O Convento de Cristo em Tomar, o Mosteiro da Batalha em Aljubarrota e o binómio Convento de Mafra- Baixa Pombalina são os três exemplos maiores de uma comunidade que se soube reinventar e conceber futuros maiores para uma Nação e uma Europa demasiado preocupadas com a sobrevivência diária.

D. Duarte ficou conhecido por ter escrito vários tratados de Ética e Moral num período da história europeia onde esta parecia escassear.As suas obras dirigiam-se à nobreza nascente que ,amiúde , misturava o seu interesse particular com o bem geral .O Panteão que mandou construir para si no Mosteiro da Batalha é um testamento vivo da grandeza intelectual do monarca e um símbolo maior da Identidade portuguesa, pois a sua não conclusão (dai serem “imperfeitas”) representa o sentimento nacional de um projecto que ficou por acabar: tema encontrado com frequência em Fernando Pessoa e que fundamenta o messianismo pessoano

O Panteão é um octógono (tal como a Charola do Convento de Cristo em Tomar) que mais não é do que a estilização da rosa ,que na Idade Média simbolizava Renascimento, que pode ser igualmente encontrada (mais uma vez estilizada) na Cruz da Ordem de Cristo ao centro com uma cruz branca.Mesmo Lisboa, construída em função do dia 24 de Junho (nascimento de S. João Baptista)  justificam (debate que não caberia num post) que ser-se português, longe de ser uma questão de sangue, religião ou território é um acto de consciência, um processo de identificação com um projecto que ultrapassa as gerações e as fronteiras territoriais.

A importância das Capelas é indiscutível no seio da Identidade Nacional, já mais discutivel é a relevância concreta desta no presente e futuro de Portugal do sec XXI

Os os mais pragmáticos dirão que um amontoado de pedras nada contribuem para aumentar o PIB e comprar mais carros e pacotes de férias nas ilhas da América do Sul.Uma ou duas pedras a cair é algo de menor importância face aos problemas com que o país se debate.è um enquadramento mental que podemos encontrar já no sec XIX com a proposta autárquica de arrasar o Castelo de Guimarâes para pavimentar estradas…as estradas do progresso em direcção ao Nada .

Mas isto não é pragmatismo é ignorância porque um Povo que não se identifica com algo mais não é do que um rebanho de vontades futéis , servos sujeitos a qualquer vontade maior, desprovido de Identidade ,desprovido de espinha dorsal .Já o Infante D. Pedro dedicava a D. Duarte em 1418 que o poder em concreto, aquilo que designa por dominium politicum, distinguindo-o claramente do dominium servile, próprio da escravatura, é aquele que é outorgado ao Rei por consentimento do povo e que este tem de servir o bem comum...sublinhe-se o comum, diferente da soma dos interesses particulares.

Quando cai uma pedra do Mosteiro da Batalha, não é um pedregulho que cai mas sim um sinal de 8 séculos e 22 gerações que se levantam perante o imenso ridículo que se apossou de nós.

Estará a rosácea das Capelas Imperfeitas a colapsar?

 

RGS

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6 Responses to O dia em que as Capelas Imperfeitas ruiram

  1. Pingback: Desabamento no Mosteiro da Batalha…se isto não é um sinal, não sei o que será « omantodorei

  2. Madrepérola says:

    Penso que o único problema (por de certo provocado pela luta pela sobrevivência?) é a falta de se criar um conjunto de pequenas iniciativas que juntas fariam possível uma acção conjunta dos seus resultados, e do recebimento de uma maior ajuda da parte dos devidos orgãos, para se tratar da Restauração, a qual aliás não seria somente cara, já que, por outro lado, significaria “trabalhos” (nem me atrevo a dizer empregos… mas quem sabe com a ajuda dos tais orgãos). No fundo, não é só referente ao Mosteiro da Batalha, mas a centenas de outras restaurações urgentes…. — empregos, portanto!
    Quando falo dos devidos orgãos, falo da UNESCO, por exemplo.
    Quando falo de um conjunto de pequenas iniciativas… refiro-me a tudo o que é possível fazer entre pessoas minimamente positivas unidas em retorno de um objectivo assim:
    Por exemplo:
    Uma campanha de informação acerca do objectivo de voltar a ter o Mosteiro da Batalha como ele sempre foi e deve continuar… por exemplo fazerem-se “tea-shirts”, ou um seu substituto melhor, a esse respeito, e outras coisas assim, que permitem levantar conhecimento, o interesse , e a confiança de que se pode e deve resolver a questão. Procura de padrinhos da restauração, a nível internacional, tanto sob a possibilidade de doação de pequenas quantias como de grandes quantias, motivando-os perante um plano turístico no futuro… Um filme, enfim, muitas possibilidades, em conjunto com as necessidades mais urgentes do País… de produzir.
    Mas sendo o Mosteiro tão básico, não percebo como é que o deixaram tão abandonado e esquecido… e… deprimido.
    É mais difícil e caro, agora, lutar pela sua renovação e restauração, do que há poucos anos, quando estava por de certo em melhor estado. 🙂 No entanto, é inevitável… ou morre o País com ele !

  3. Madrepérola says:

    “já mais discutivel é a relevância concreta desta no presente e futuro de Portugal do sec XXI”.
    Não é discutível, caro.
    Qq país precisa de ser imaginativo para poder produzir coisas, fazer dinheiro que chegue, e poder cuidar do seu Património. E tanto a Europa como a UNICEF deveriam, viram a certa altura a ajudar também esse processo.
    Quando eu fui com a Erasmus a Portugal em 2001-2, provei a pessoas em meu redor, o meu espírito de iniciativa nestas coisas ! Fui porém confrontada com o hábito de uma atitude passiva, por ventura altiva, que rejeitava a necessidade e importância desse espírito.
    Para não falar de muitas outras desgraças que recebi em resposta.
    Agora, é tudo mais difícil ainda do que então !
    Mas discutível, não é.
    O povo mais simples de hoje em dia, sabe que o seu Património Cultural e Arquitectónico como o nosso é a sua maior riqueza, e *uma das maiores importantes fontes de rendimento para o País* !
    Talvez o “basic income”, venha a permitir mais ânimo e alívio, e o que é necessário para se saír de tal espírito de destruição do que temos de melhor, seja a nível de pessoas, seja a este nível.

  4. Madrepérola says:

    “viriam”, onde está “viram”.

  5. Madrepérola says:

    Na página virtual sobre o Mosteiro, a qual procurei para saber o que se tem passado desde a sua publicação, não encontrei qualquer referência a este assunto, infelizmente.

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