Portugal, um povo suicida ?

Miguel de Unamuno é classificado como um dos grandes nomes da “geração de 98” da inteligência espanhola, além de ser considerado o precursor do existencialismo em seu país. Suas obras são conhecidas por romperem com os gêneros tradicionais.Dedicou parte da sua vida a reflectir sobre a “Alma portuguesa” , o pessimismo nacional e a ilusão que foi a curta esperança na República, que acabaria na “cátedra do fascismo”.

Considerado um dos mais profundos pensadores europeus a sua análise é actual e deve obrigar à reflexão interna:Suicidio como escape é uma fraca abordagem ,os portugueses contráriamente aos ingleses não escapam para “fight another day” arriscam tudo porque a sua medida não é a do proveito monetário, mas a da verdadeira paixão

«Um Povo Suicida»

Talvez o mais notável texto que Miguel de Unamuno consagrou a Portugal. Vale a pena interioriza-lo com toda a atenção, pois Unamuno, desta vez em Lisboa, persiste no tema da depressão nacional:

O tema de Inês de castro (um dos mitos nacionais) onde Lima de Freitas pinta o que D. Pedro I vê e não a realidade numa alienação mental que se confunde com loucura suicída

«Portugal é um povo triste, até mesmo quando sorri. A sua literatura, inclusive a sua literatura cómica e jocosa, é uma literatura triste.Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida para ele não tem um sentido transcendente. Querem viver, sim, talvez; mas para quê? Mais vale não viver.» ,evoca os suicídios de Soares dos Reis, de Camilo, de Mouzinho de Albuquerque mas, em primeiro lugar, o de Antero, que dorme para sempre «com seus irmãos Obermann, Thomson,Leopardi, Kierkegaard», para perguntar: «E digam-me: a morte de Buiça,não foi em rigor um suicídio? (…) Não acham que é mais do que uma ‘boutade’ o que alguém disse: que o rei D. Carlos foi [também] um suicida,que Buiça o suicidou?»

O regicídio, o capítulo final de uma era que desembocaria num dos piores periodos da vida nacional concorre para se formar mito sobre a verdadeira identidade de um povo que confundiu percepção de decadência com a sua criação.Fernando Pessoa evocaria a espera do Rei com fim ultimo da gesta portuguesa

Transcreve, depois, uma longa carta recebida do seu amigo Manuel Laranjeira que, em 1912, também se viria a suicidar.Carta esclarecedora, na qual o ainda hoje injustiçado escritor português afirmava: «O pessimismo suicida de Antero de Quental, de Soares dos Reis, de Camilo, mesmo do próprio Alexandre Herculano (que se suicidou pelo isolamento como os monges) não são flores negras e artificiais de decadentismo literário. Essas estranhas figuras de trágica desesperação irrompem espontaneamente, como árvores envenenadas, do seio da Terra Portuguesa. São nossas: são portuguesas; pagaram por todos, expiaram a desgraça de todos nós. Dir-se-ia que foi toda uma raça que se suicidou.

O Sebastianismo , a última aventura em África resumiu-se a um suicídio colectivo que engoliria a Nação inteira com o desaparecimento do Rei no campo de Batalha, outro mito fundador que ressalta a inevitabilidade de penhorar a vida em nome de um Ideal maior

Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada – o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção moral. Neste malfadado país,tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.» (…) «Crer!Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença – na morte libertadora. A Europa despreza-nos; a Europa civilizada ignora-nos; a Europa medíocre, burguesa, prática e egoísta, detesta-nos, como se detesta gente sem vergonha, sobretudo… sem dinheiro.» (…) «Às vezes, em horas de desânimo, chego a crer que esta tristeza negra nos sobe da alma aos olhos; e, então, tenho a impressão intolerável e louca de que em Portugal todos trazemos os olhos vestidos de luto por nós mesmos

Advertisements
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

One Response to Portugal, um povo suicida ?

  1. CL says:

    Talvez seja apenas o realizar de que a questão da vida não tem solução. A aventura humana, por mais admirável que seja, é em si mesma um suicídio, é cair para nada. Nada adianta. Essa realização será talvez o que levou, depois do fascínio pela França que Eça tinha, a um livro como A Cidade e as Serras? Será talvez o que levou ao suicídio pelo isolamento de Herculano? Eu acho facilitista, altivo e arrogante dizer que a causa disso é o terreno fértil que é Portugal para a mediocridade e a corrupção. Se formos honestos podemos é dizer que não adianta. Se tudo se faz ou ao combate do outro ou, literalmente, enganando-o, porque a realidade é uma e única para cada um, então nada vale a pena. O mais digno talvez seja a pura abstenção… abster-me de viver, e abster-me de morrer.
    Obrigado pelo artigo.

    Cumprimentos,
    CL

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s