a importância de ser Português no sec XXI

Todos conhecemos o “Padrão dos Descobrimentos” com o Infante D. Henriques à frente da gesta que construiu a epopeia marítima portuguesa.

Antigo pavilhão de gesso e madeira, elevado a monumento de pedra por óbvia simpatia popular e ,dirão alguns, capacidade de propagandear uma “certa visão da História” numa época em que os Estados a isso se prestavam para se legitimar, o Estado Novo não foi excepção, veja-se então a estátua que glorifica a revolução russa:

ou até um exemplo mais próximo  e comparável com Portugal, a Estátua à epopeia marítima de Espanha que se resume à estátua de Cristovão Colombo em Barcelona:

A diferença entre o Padrão e os restantes exemplo (todos glorificam projectos nacionais) está na concepção que cada povo tem do “ser” espanhol russo ou português.Os espanhois valorizam o esforço individual,seja ele Colombo ou El Cid , dai o monumento realçar o individual, um único homem a apontar aos restantes o caminho.O caso russo não é diferente e podia-se inclusive focar o monumento aos 300 anos da marinha russa com o Czar sozinho em cima do pedestal (mais uma vez um marco comemorativo de esforço colectivo).

O caso português é completamente diferente.As descobertas são entendidas ,não como a soma de esforços pontuais de “herois” ,mas como o esforço de toda uma comunidade (de notar que as estátuas são do mesmo tamanho e formam um conjunto único) e quem está à frente não é o Rei mas alguém que até podia ter recolhido proveitos em sede de Poder e não o fez. As descobertas são na verdade o fruto de uma comunidade, um esforço sustentável só exequivel numa Nação que se entende como um Estado que perdura nos tempos onde o Poder (o Rei) é o elemento agregador das vontades, o factor que confere racionalidade  ao sentimento de pertença .

Históricamente este exemplo de esforço comum é visivél na deferência que os portugueses conferem ao Poder ,Não é fortuita e mera casualidade que a República tenha tentado a erradicação da figura do Chefe de Estado (substituida por um cripto-Rei um figurante protocolar, o Presidente ) poís que a mera existência de um Rei ,mesmo sem poderes, era suficiente para refrear a voragem dos partidos tal era o peso da legitimidade da Casa Real, tal foi a queda da Nação com o assassinato de D. Carlos.

Portugal é o único Estado que tem uma única linhagem Real desde a fundação até hoje (mesmo sem a legitimidade temporal SAR D. Duarte de Bragança é o Rei dos portugueses e essa legitimidade é um facto jurídico popular e histórico reconhecido pela própria República) Esta perenidade Institucional só pode ser explicada pelo facto de que o Trono em Portugal nunca foi factor interno de concorrência pelo Poder nem motivo de clivagem entre os portugueses enquanto o entendimento de portugalidade se manteve desprovido de importações ideológicas , casos que ocorreram no sec XIX com a Independência do Brasil e sec XX com o Regicídio o que explica muito da desconfiança que os portugueses prestam às Instituições do Governo.Parecem-lhes estrangeiras e com razão.

Houvessem dúvidas sobre a capacidade de mobilização nacional e bastaria evocar o singelo facto de Portugal ser um caso único de produção literária com ,não um mas dois vultos de dimensão internacional. Camões e Pessoa.Mais uma vez a distância temporal entre estes dois poetas da gesta nacional só aumenta o espanto perante a coerência entre os dois discursos.Ambos destacam os mesmos erros, faltas, esperanças e ambos estendem os seus esforços ao Rei, não a pessoa física mas a “parte” política que dá coerência ao todo

A importância da portugalidade no sec XXI resume-se em boa parte a excepcional capacidade de mobilização em torno de projectos comuns, fruto do sentimento de identidade e partilha de um passado comum.Mas não basta convocar os cidadãos para um objectivo há que tornar esse esforço sustentável ,perene e partilhado pelos representantes eleitos, algo inviável com eleições de 2 em 2 anos (ou de 4 em 4) com os objectivos a mudarem radicalmente ao ritmo anual e sem uma garantia que o risco seja equitativo ou que haja uma verdadeira fiscalização (Chefe de Estado) ás genuinas intenções do executivo.Uma garantia que apenas um monarca pode satisfazer.

Os portugueses desconfiam, com razão, do Poder e não se revêem no monumento de Belém e no palácio que o antecede na Praça do Império, o passado parece a cada dia uma memória de um País que já foi independente, já teve vontade que já foi um projecto.

É tempo do espírito de 1640

 

RGS

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One Response to a importância de ser Português no sec XXI

  1. Ilda Pontes says:

    Obrigada. Gosto de saber o que fizeram os nossos reis e sobretudo, de que forma marcaram o rumo da nossa história. Neste momento estou a ler “Os nove Magníficos” de Helena Sacadura Cabral, ainda estou no início, tem uma escrita que me agrada, simples, e o resto, a ver vamos …
    🙂

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