A Espera

“Sperae! Cahi no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervallo em que esteja a alma immersa
Em sonhos que são Deus.

Sebastianismo

Louco, sim, louco, porque quiz grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nella ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver addiado que procria?”Mensagem, Fernando Pessoa

De uma forma sucinta, Sebastianismo foi a crença no reaparecimento de D. Sebastião, rei de Portugal. Na batalha de Alcacer-Kibir, D. Sebastião lançando-se intempestivamente contra as forças muçulmanas, desapareceu sem que os fidalgos que o acompanhavam pudessem ao menos recolher os seus restos mortais.

O debate sobre a morte do jovem Rei em batalha continua ainda hoje mas acaba por ser secundária face à importância que o Portugueses atribuiram e atribuem à figura do monarca no rumo de Portugal .

À primeira abordagem o sebastianismo refere-se a um messianismo com centro de gravidade na pessoa de D. Sebastião e nesse sentido podemos ir mais longe e incluir Camões, que era seu contemporâneo e lhe dedicou a obra da sua vida: “Os Lusíadas “.Longe de aspirar o regresso de um “salvador da Pátria” (D. Sebastião morreria vários anos depois da conclusão de “Os Lusíadas”) ou um messianismo em concreto Camões foca problemas da sua época evocando o monarca  a restaurar as energias do Estado longe da decadência que então se adivinhava.

A verdade é que o Sebastianismo sempre foi um pretexto para se discutir a gestão do Estado, aferir sobre a culpa da inércia do País em torno de um projecto maior: O futuro de Portugal enquanto comunidade com uma forte noção de identidade e o papel do monarca como elemento aglutinador de sinergias.

Em Portugal o Poder tem peso efectivo não sendo de estranhar a extensão da Lei Fundamental (296 artigos, a Constituição alemã tem 146 artigos; a italiana, 139; a francesa, 92; a espanhola, 169,  a dos EUA 34 artigos -27 emendas em 217 anos de vida, uma mudança a cada oito anos em média-), a extensa produtividade legislativa, a escassa liberdade económica , a parca longevidade das normas júridicas ou o peso regulador do Estado e este histórico de actuação é tão antigo quanto a nacionalidade.

Não é de estranhar que uma das primeiras intenções dos revolucionários de 1910 fosse abolir totalmente a figura do Chefe de Estado (algo aceite na Constituição de 1911 com relutância), que a Republica tenha advido ,não do golpe de 5 de Outubro (feriado recentemente abolido pelo Governo da República), mas o assassinato do monarca em funções (D. Carlos) após 3 tentativas de regícidio à Casa de Bragança, que as sucessivas Republicas tenham um histórico de atentados, assassinatos e execuções a politicos eleitos em funções de onde se destaca o Presidente Sidónio Pais.De facto os eleitos sempre procuraram eliminar qualquer restrição ou amarra às suas pequenas ambições pessoais

Entre o Povo que não legisla, não regula ou gere o Estado e o povo que sendo eleito ou não decide em sede própria o que é certo ou errado aos olhos da Lei destaca-se e sempre se destacou o Chefe de Estado e a sua neutralidade face aos partidos.A legitimidade do Presidente baseia-se na aceitação que lhe é conferida pelos portugueses aceitação sociológica e histórica: que na larga maioria se fundamenta , não na Lei, mas na deferência mística que sempre foi atribuída aos Reis e Rainhas como elementos de identificação nacional ; e em menor dimensão na desconfiança dos eleitores sobre as motivações dos eleitos, que fundamenta a existência jurídica do Chefe de Estado .Algo bastante perceptivel no momento pesente.

O Messianismo presente na espera do Rei mais não é do que a exteriorização activa do distanciamento entre o Estado e a comunidade que por ele é gerida, a distância entre as aspirações dos portugueses e a ambição dos politicos, a distância entre o futuro que desejamos e aquele que podemos aspirar.A distância entre um Presidente que encara a função como um emprego e um Rei que encara a mesma função como uma missão que se prolongará na eternidade.

A distância entre aquilo que se pode e aquilo que quer define o calibre dos povos e dos seus representantes.Portugal Estado pobre e periférico que sempre, com um povo extremamente ambicioso foi só podia ter um D Sebastião, um D. João II, um D. João IV…um D. Afonso I, alguém que faz da sua vida uma missão de risco, não poucas vezes com o custo da própria vida e sempre com o custo da individualidade, em proveito dos restantes que hoje se podem, ao fim de 900 anos se denominar portugueses,poís que todo o esforço individual é em vão se não existe algo que concentre as energias da comunidade, se não existe verdadeiramente uma vontade de viver em comunidade em partilha de riscos e benefícios.

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SAR D. Duarte de Bragança

D Sebastião não morreu no deserto de África ,vive ainda hoje no interior de cada um de nós.É razão última que nos leva a esmorecer até ao suicídio colectivo cada vez que o vemos distorcido no reflexo dos politicos que elegemos.

RGS

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