Monarquico Vs Republicano: Ribeiro Telles e Medeiros Ferreira debatem o regime

Ribeiro Telles entrevista Medeiros Ferreira

“O Estado Novo é um interregno”

Vivem a ideologia de dois regimes diferentes mas unem forças na luta pelas liberdades públicas. Ribeiro Telles defende a instituição real como símbolo de continuidade histórica. Medeiros Ferreiras apoia-se na conquista do 25 de Abril para justificar a figura do presidente da República. A propósito da Implantação da República, hoje, 98 anos depois, como monárquico, o arquitecto aceitou entrevistar um republicano, a convite da Domingo

Arq. Ribeiro Telles, Monarquico

(5 de Outubro de 2008)

Gonçalo Ribeiro Telles (R.T.) – Será que ainda há republicanos?

Jose Medeiros Ferreira, Republicano

José Medeiros Ferreira (M.F.) – Em Portugal, a população é republicana, os republicanos são a maioria silenciosa do povo português. O regime está consensualizado e tão estabilizado que, de certa forma, a população, intimamente republicana, não se expressa muito sobre os termos do regime. Portugal é, se não estou em erro, o segundo país europeu que, tendo sido dotado de uma Monarquia, sai dotado de uma República.

Mas os monárquicos não desapareceram. Basta percorrer o País e juntar as pessoas autênticas. O Zé-Povo é autêntico e gosta que tudo seja verdadeiro. Sem máscaras.

Acho, obviamente, que o povo é republicano. Em termos do Mundo actual, se virmos bem, todos os novos países se dotam de uma República na tradição da primeira grande República da era moderna, que são os Estados Unidos.

Diga isso, diga… Todos têm um Bush de vez em quando.

Mas têm a vantagem de que, na próxima eleição, pode ganhar o Obama.

Mas a rainha de Inglaterra tem outra vantagem: ela retira outros da próxima eleição.

Se se portarem mal. Isso é que é uma grande vantagem!?

O que me preocupa, como monárquico, é o futuro. Se repararmos, na Europa todas as grandes áreas quantificáveis são agora Repúblicas: França, Itália, Alemanha. Mas todas as áreas da nossa dimensão de qualidade são Monarquias. A Espanha, Reino Unido, Bélgica, Noruega, Luxemburgo, Suécia.

São países ‘congelados’.

Se os republicanos acham que a Monarquia [constitucional] está ‘congelada’ no Reino Unido e Espanha, então os republicanos estão ‘congelados’. Mas eu queria-os activos. Mais agora que vamos criar a Fundação Res Publica. Para mim, na nossa História, as melhores Repúblicas foram na Monarquia. Aquelas mais aceites, que tiveram uma epopeia mais universal, até ao século XIX – no nosso caso. Evidentemente que, agora, esta sucessão de Repúblicas tem um problema de autenticidade das instituições em relação à continuidade histórica. É uma perda não termos uma autenticidade como a Noruega, Suécia, Reino Unido. A própria Espanha recuperou autenticidade.

Penso que não tenhamos perdido autenticidade. Pelo contrário. O facto de nos termos dotado do regime republicano – em 1910, no continente europeu, só havia monarquias, excepto a França e a Suíça – significa que a autenticidade, originalidade e a vontade do povo foram de tal maneira fortes.

Mas não foi votada sequer. Não houve referendo sobre o regime.

O regime só foi reconhecido depois da Constituição da República Portuguesa, em 1911. A actual Constituição defende a forma republicana de governo.

Puseram isso para defender a República e enganaram-se. Os governos da Monarquia são todos republicanos. O governo da Inglaterra não é votado pelos republicanos? O nosso acordo é: o Chefe do Governo é republicano, agora deixem ficar no País uma identidade, independência, cultura, projecção humanitária para o Mundo todo.

O Mundo moderno aponta para melhor qualidade política para os cidadãos, em termos de igualdade e racionalidade, no regime republicano. Na História de Portugal, a República estava inscrita desde 1820 na ordem natural das coisas. É um regime eminentemente português instaurado em 1910, não por indução externa. Falo da força endógena própria do republicanismo português.

Quer dizer, afinal, que este não era um país de analfabetos?

Era, era. Quando a República é implantada temos 78% de analfabetos. É, de facto, uma das piores heranças.

Não foi das piores heranças porque nós, na altura, éramos um país avançado. Foi depois a propaganda que nos transformou num país miserável. A República não foi referendada mas tem uso. Naquele momento foi um golpe militar. De resto, quando o Paiva Couceiro entrou pelo Norte era para fazer um referendo, não era para instaurar a Monarquia. Ele nem trazia a coroa na bandeira.

A Monarquia também não foi instaurada por referendo.

Pois não.

E no século XIX já havia referendo.

E a República foi implantada pelo telefone, depois de um golpe de força de Lisboa.

Há, de facto, um golpe de força em Lisboa, perante a desagregação dos partidos monárquicos.

Então diga se a desagregação, hoje, vai conduzir à Monarquia?

Nós temos um regime bastante estável.

Com o desaparecimento total das aldeias?…

Esse é outro problema.

Não é quando a comunidade é um todo. Isso é trágico, o que se está a fazer nesse sentido.

Voltemos à República, que, no início, é exactamente o contrário dessa tendência. O que faz a República quando se vai implementar? Vai criar um sistema de instrução pública. Ou seja, quadrícula de instrução no território; cria o serviço militar obrigatório; cria a expansão das contribuições pelo território. O Estado penetra no território. É quase o contrário do movimento a que se assiste hoje, de concentração dos serviços públicos – aí estou de acordo que possa haver alguma discussão…

E há mesmo discussão!

Mas a República é, pelo contrário, uma linha de expansão do Estado, de modernização do Estado. O que é o registo civil? É a racionalização, a modernização dos serviços públicos, para que o cidadão português se registasse…

E para isso era preciso República?

Foi. Mas, hoje, alguém de bom senso se iria opor ao registo civil? Ninguém. À altura houve um grande combate, os que são a favor do registo civil, que são os republicanos, e os que são contra, que são os monárquicos. Entre os quais grande parte do clero…

Isso era um combate com a Igreja. A República instaurou-se porque, de facto, havia uma moda.

… Não havia moda.

Ai não? Havia os assassínios, havia as bombas por todo o lado. Havia a Carbonária, que deu origem até às cores nacionais – aliás, que eu defendo.

Quando Portugal implanta a República está sozinho. Desse ponto de vista, é qualquer coisa de original e muito próprio da sociedade portuguesa. O movimento de difusão republicana, em termos europeus, só se vai operar depois do fim da I Guerra Mundial. Entre 1910 e 1917/18 – até ao fim da guerra – não há outras Repúblicas.

Olhe aqui o problema de Espanha, que foi também uma República e já acabou tragicamente. A nossa começou como uma tragédia.

A Monarquia com o seu acto adicional de 1895…

É parecida com o que é hoje. O parlamentarismo é dessa época.

Tenho alguma simpatia pelo progresso que a Monarquia constitucional introduziu no País. Eu sou um partidário da celebração conjunta do dia 24 de Julho de 1834. Mas isso não significa que no fim da Monarquia não haja uma degradação dos costumes e das liberdades.

Não foi dos costumes e das liberdades. Foi o pensamento, que passou de uma intelectualidade livre para pensar. E, naquela altura, grassava o Positivismo, a luta contra a Igreja, a ideia de que o Homem tinha uma base científica e não espiritual – as farmácias vendiam isso todos os dias. Não é preciso a República para existir isso. A I República deu origem à II República, que é um desastre.

Deu origem a um regime híbrido.

Híbrido!?

Não vou dizer que é o seu caso, mas houve muitos monárquicos que puseram esperança no dr. Salazar para restaurar a Monarquia.

Foi o grande falhanço dele, senão estávamos todos como a Espanha. Nisso Franco foi muito mais inteligente.

Embora obrigando o filho a renegar o pai, o que não é muito bonito.

Não renegou o pai. O filho era independente da tutela do pai para fazer o seu serviço meritório à Espanha. Temos aqui é uma grande visão e que a República não tem. E é isso que defendo, nós temos um serviço que não é para o indivíduo, é para a comunidade. Como é em todas as Monarquias o serviço do rei. O serviço é, além de direito e dever, qualquer coisa que tem de se considerar generalizado e com continuidade. E a continuidade possível é aquela que é mais parecida com a nossa própria continuidade familiar. O cidadão [actual] tem direitos e deveres mas falta-lhe uma coisa que o súbdito tem: o serviço.

Não pode haver privilégios de sangue. Todo o cidadão é igual perante a Lei. A República resolve do ponto de vista filosófico, da forma mais coerente possível, o que os monárquicos nunca conseguirão resolver: a questão de que todo o cidadão é igual perante a Lei e não há privilégios de sangue.

Mas eu gosto mais que haja o privilégio do sangue – desde que seja do consenso geral – do que o do dinheiro. Eu vejo é que o melhor é a Monarquia, por símbolo, História, humanismo, porque permite mais liberdades do que um Presidente da República, que acaba por ser eleito por partidos – os partidos que elegem o Parlamento, com certeza. Mas deixem ficar pelo menos uma estrutura simbólica, de unidade, de continuidade, que é a instituição real, que possa garantir o prolongamento disso.

Penso que essa figura não faz falta. Desde o nascimento do regime democrático em Portugal, originado pelo 25 de Abril, nunca houve uma crise relacionada com o Chefe de Estado. Qualquer votação [em referendo] dará sempre uma vitória ao regime republicano.

Eu fico com a minoria activa…

Aliás, eu estou aqui para, de certa maneira, fazer uma vénia ao vosso activismo [monárquico].

Eu mesmo entrei, inclusive, na III República, a fim de defender a liberdade…

Não só entrou na III República como sempre defendeu as liberdades públicas. É diferente.

Isso é um grande ponto de contacto.

É o maior. Sobretudo quando se combateu durante o tempo da ditadura.

Quando se tratava da liberdade, eu queria deitar abaixo a II Re-pública, porque não podia deitar a primeira. Agora, queria, de facto, transformar a III República na Monarquia.

Depois, se estamos na República, que se juntem a nós na luta pelos direitos. Não sei se estamos na III República. O Estado Novo é um interregno.

Por amor de Deus, não havia Presidente da República?

Chamava-se Chefe de Estado, que era para não designar por Presidente da República.

Vou ver isso com cuidado…

Defendo a continuidade do regime republicano, independentemente da forma concreta de governação.

Bruno Contreiras Mateus

fonte:
http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=80DD1ED0-1FC9-469A-A176-D44F754C23A0&channelid=00000019-0000-0000-0000-000000000019

Advertisements
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s