O Cavalo de Troia

A recente eleição falhada de Fernando Nobre para Presidente da Assembleia da Republica evidenciou uma realidade que apenas FN e os seus seguidores se escusavam a encarar.Nem no grupo parlamentar do PSD o nome de Fernando Nobre era consensual, apesar da insistência de Passos Coelho.

Apesar de alguns argumentos a favor de uma cabala contra o carácter cívico de Fernando Nobre (um “independente” a presidir à Assembleia da Republica, como afirmaria Passos Coelho), nomeadamente com origem no CDS-PP (parceiro de coligação governamental), a realidade é bem outra. Nas duas tentativas de eleição Fernando Nobre perdia apoio na própria bancada parlamentar que o propôs e o facto ganha relevância com o conhecimento de que o voto foi secreto e independente de indicações dos grupos parlamentares.

Todo o processo que envolveu o recente percurso politico de FN deixava mais duvidas do que certezas.Não só na campanha Presidencial o acumular de boatos sobre apoios do PS se acumularam como o próprio FN transportava em si a total ausência de propostas e ideias que sustentassem a candidatura presidêncial, e posteriormente como cabeça de lista por Lisboa às legislativas. Fernando Nobre transpirava sempre uma agenda própria a ser aplicada assim que fosse eleito e as suas propostas nunca passaram de frases feitas construidas para arrancar aplausos no momento ou para fazer contraponto à Politica, o que em Portugal funciona dada a falta crescente falta de credibilidade dos partidos politicos.

De uma candidatura a Presidente que acumulava em si forte apoio da população, desde os descontentes dos vários grupos do arco partidário aqueles que nunca haviam votado. Fernando Nobre apresentava-se como uma proposta séria.Presidente da Assembleia de um movimento cívico presidido por D. Duarte de Bragança (logo à partida um forte crédito à independência partidária de FN, foi o pilar primário da sua base de apoio) que se constituia como principal trunfo no currículo de participação cívica, longe do carácter humanitário da AMI ou da participação fortuita em campanhas partidárias onde só precisava de aparecer.

Fernando Nobre teve contactos com quase todo o arco partidários, desde o PPM, passando pelo Bloco de Esquerda e PSD, a base de apoio seria forte o suficente para levar a bom termo a campanha.Mas um factor essencial jogaria contra o objectivo.

Logo passado pouco tempo FN renega em entrevista a sua ligação ao  movimento monárquico, facto que era conhecido do publico e funcionava a seu favor, provocando o éxodo dos monárquicos que viam em Fernando Nobre uma proposta séria para a moralização da Politica .O discurso politico estagna com o passar da campanha levando ao abandono de vários apoiantes e o boato da mão de Soares atrás da campanha veio suscitar ainda mais dúvidas.No termino da campanha apenas a demagogia e o puro calculismo politico prevaleceriam

Afinal o que sempre se moveu contra os objectivos de FN fora a sua própria ânsia de Poder. Passado semanas do fim da campanha presidencial FN aceita ingressar nas listas do PSD, contrariando o que havia dito publicamente sobre “jamais ingressar numa campanha partidária” e cometendo o pecado maior de converter os votos que haviam granjeado em capital politico, mote para exigir do PSD um assento garantido no 2º cargo mais elevado do Estado: Presidente da Assembleia da Republica.

Para Passos Coelho e todos os intervenientes tornou-se claro que o forte capital politico de Fernando Nobre era algo a desgastar depressa.A Nobre apenas interessava o Poder e os motivos eram tudo menos claros.Depois da eleição perdida de ontem fica a quase certeza de um suspiro de alívio por parte de Passos Coelho que se livra assim de uma agenda própria independente do Governo a mover-se no mais elevado posto da AR.

Mas nenhuma ilusão morre sem deixar um sabor amargo.Fernando Nobre contradiz-se novamente e afirma ficar como deputado até o País não precisar dele.A rejeição da maioria do parlamento não foi facto evidente para FN e a máscara cai no final do acto

A derrota de FN leva consigo a credibilidade de qualquer futuro movimento cívico ou alternativa de cidadania ao arco partidário.O grande legado de Nobre foi a morte das soluções politicas fora do espectro partidário.No final FN presta um enorme serviço à Republica e confina por muito tempo a participação cívica aos partidos com todos os seus defeitos e decrescentes virtudes, agora que passou a ameaça.

dificilmente os portugueses se rodearão em torno de outra figura publica extra partidária o que deixa o movimento monárquico e D, Duarte de Bragançacomo o último bastião sério de cidadania extra partidária, a última reserva de independência politica

Com a derrota de FN entra a Democracia portuguesa numa nova fase, com a morte de mais uma ilusão, reforçada em que torna-se claro que a cidadania deve ser praticada em torno de realidades palpáveis em não em torno de utopias demagógicas que raramente se afastam do exercício pessoal do Poder, de ditaduras e autoritarismos em nome do “Povo” e contra as instituições que o representam.

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