Lonergan e as abelhas honestas

O Texto seguinte é apenas uma proposta de enquadramento do modelo económico de Lonergan face às permissas que subjazem o pensamento económico ainda hoje.A história recente divide-se apenas em 3 fases: Liberalismo de Adam Smith, Liberalismo limitado de Keynes e neo-liberalismo de Hayek. As correntes económicas actuais são:

a) Neo-Clássicos, é o paradigma dominante no meio académico e representa a maioria dos economistas na actualidade. Baseado em Walras e no método particular como funcionavam os mercados franceses no sec XIX, usam modelos DSGE (modelos de equilibrio estocásticos – permitem choques nas variáveis fundamentais- e dinâmicos- permitem extrapolar ao longo do tempo a variação da economia-) e defendem a tendência dos mercados (todos) para o equilíbrio absoluto.

b) Pós-Keynesianos, minoria entre académicos e políticos. Tentam explicar a origem de crises e depressões. Vagamente derivado do Keynesianismo rejeita os fundamentos de microeconomia usados pelos neo-clássicos e austriacos (contestam o principio de maximização de utilidade pelos indivíduos em favor de expectativa destes sobre o futuro, lidar com a incerteza e contestam a busca de lucro pelas empresas como factor determinante em favor de um “espírito animal”), contestam o equilíbrio absoluto dos mercados, introduzem dinheiro e sector bancário nos modelos. As maiores referências são Fisher e Minsky

c) Libertários (escola austríaca) , paradigma dominante entre políticos, uma minoria entre académicos. Ganhou notoriedade durante a década de 70 do sec XX. Baseado na Escola de Viena durante o sec XIX e no pensamento de Carl Menger, o seu maior proponente foi Hayek .

Da Escola austriaca (de onde adveio Polanyi) sairam várias tentativas de reformular o liberalismo que geraram várias corrente. Os libertários diferem dos neo-clássicos pela questão sobre inovação e choques tecnológicos que alterem fundamentalmente o capitalismo, diferem pela defesa de que o mercado nunca está em equilíbrio (factor que leva ao empreendedor a procura de novos processos para atingir o equilíbrio, gerando inovação, opôem-se ao uso de modelos matemáticos (crítica a uma procura de igualar a Economia à Física porque a mente humana é impermeável a modelos matemáticos) , defendem a procura individual de lucro numa forma agregada o que justifica a ausência de acção por parte do Estado. A Maior referência actual é Schumpeter

e) Comportamental, minoria residual, estão muito presentes nos media focam-se na evolução do capitalismo rejeitando a permissa de que os agentes agem racionalmente . Baseado em Marx vêm o socialismo como último estágio da sociedade e o capitalismo como forma de exploração do trabalho. Valor não é a utilidade obtida pelo agente mas o esforço de produção, Focam-se na luta de classes e defendem que todo o lucro advém do trabalho sendo que a taxa de lucro diminui à medida que o trabalho é substítuido por maquinaria.

f) Ecologistas ou evolucionistas, minoria em crescimento. Focam-se no impacto para o ambiente do aumento de produção . Rejeitam o modelo de equilíbrio dos neo-clássicos porque se focam nas mudanças num conteto evolucionista que anula o conceito de equílibrio e defendem o limite de crescimento. Referências: Herman Daly e Dennis Meadows

g) Economistas de género e étnia. Referências: Marilyn Waring e Julie Nelson

h) econofísicos. Minoria residual ,têm no entanto uma grande representação nos mercados financeiros (construção de modelos de risco) . Focam-se na ligação entre fenómenos económicos e fenómenos físicos ao nível dos modelos matemáticos. Rejeitam a eficiência dos mercados e a noção de equilíbrio defendida por neo-clássicos

 

O interesse de Bernard Lonergan assenta sobre os problemas que minavam o pensamento económico do sec XX, no contexto de um quase total vazio de reflexão sobre organização económica das sociedades a abordagem económica de Lonergan surge como caso isolado .Assente nos princípios de justiça social católica: subsidiariedade, solidariedade e responsabilidade onde o individuo e a comunidade surgem, não isolados, mas imersos no mesmo contexto cultural com graus de relação recíprocos . Lonergan mantém-se fiél à experiência do que leva sociedades ao colapso. A imersão dos católicos na luta política na viragem do século não evitaria o nascimento de ditaduras, no mesmo sentido que o seu surgimento não poria em causa os modelos de Economia clássica, para todos os efeitos Adam Smith permaneceria actual até 1929 e só a entrada da II Grande Guerra traria o último prego ao liberalismo nas economias mais relevantes. No entanto o modelo económico de Lonergan não seria um modelo de macroeconomia durante todo o tempo em que trabalharia sobre ele. Permaneceu sempre um modelo essencialmente de microeconomia, um modelo focado na relação entre trabalhadores e empresas, não por debate com Marx mas porque Lonergan entendia que uma sociedade deveria tender para que fosse totalmente compreendida pelos seus agentes. Lonergan vai além de Marx ao diluir a divisão absoluta entre trabalhadores e empresários ,incluir a cultura como parâmetro do modelo e discutir o impacto de inovação tecnológica numa sociedade onde seria possivel um crescimento progressivo focado na produção de bens

É um modelo atípico onde o Estado é uma propriedade emergente do modelo que descreve comportamentos totalmente racionais dos seus agentes, assente na ideia da perseguição do conhecimento pelos seus agentes num comportamento com características de egoísmo e valores comunitários onde o ênfase sobre trabalho produtivo e industrias produtivas complementares é total.

Liberalismo

Não quererá isto significar que o velho confronto entre Platão e Aristóteles não permanece activo nem que a perseguição da felicidade que tanto animava Leibniz não permanece actual. De facto o Neo-Liberalismo que tanto se transveste como representante do socialismo católico na actualidade, tem profundas e largas raízes na perseguição individual do lucro (felicidade para alguns, dificilmente um conceito universal mas verdadeiramente uma virtude contemplativa). Podemos ser iludidos pelo principio que fez de Friedrich Hayek uma pedra angular da Economia recente (desde os anos 70) : de que as instituições emergem do conjunto de acções individuais, acção que seria impossivel para um Estado, logo ao Estado cabe criar as condições para a maior liberdade individual. Mas a ilusão não impede à memória evocar a histórica autocrítica literária de um poeta amador: Bernard Mandeville com a sua “Fábula das abelhas” (1714) que nada mais é do que a defesa da corrupção dos individuos, na célebre frase “vícios privados, benefícios públicos”, como factor primordial para o crescimento de uma sociedade. Adam Smith haveria de pegar no caso das abelhas de Mandeville para explicar a famosa “divisão do trabalho”

A Importância de Mandeville para o Liberalismo não é casual nem intelectual mas política. A “Fábula das Abelhas” é uma contestação à obra de Lebniz e a influência que Colbert (crescimento a partir da gestão da balança comercial,) poderia ter trazido a uma Inglaterra que havia feito da “Revolução Gloriosa” o padrão do modelo económico a seguir. Dialéctica e matemática foram sempre dois pilares da teoria económica e se o Tratado de Methuen que marcaria o atraso industrial de Portugal , marcaria a politica económica externa de Inglaterra. Aos intelectuais havia ainda a necessidade (128 anos depois) de explicar com números o caso estranho das “vantagens competitivas”, caso que permanece por entender (316 anos depois).

O caso do Tratado de Methuen explica-se como a “prova de conceito” do Liberalismo enquanto instrumento de política externa. Para entender a relevância de Adam Smith é preciso primeiro assumir que o Liberalismo foi antes de tudo um instrumento de política e a teoria clássica económica um componente da guerra económica.

“homens prácticos ,que acreditam estar imunes  de qualquer influência intelectual, são normalmente escravos de um qualquer economista defunto” John Mayard Keynes

Shumpeter faria uma crítica de adam Smith sobre a sua indulgência ao sentimento político da altura que favorecia o “livre comércio, laissez-faire, política colonial e por ai adiante” face ao seu pouco sucesso em Inglaterra face a um outro economista , James Steuart que publicaria o “Uma Investição sobre os Princípios da Economia Política” 9 anos antes de Smith.  Smith defendia que a divisão do trabalho  favoreceria a economia, afinal a especialização e consequente renumeração do operário diminuiriam em inversa proporção com o número de divisões do processo até ao ponto que qualquer analfabeto poderia substituir um artesão , evitando assim que um único operário pudesse ser concorrrente do empreendedor, fórmula perfeita para inibir o desenvolvimento em qualquer economia que estivesse num estádio inferior de desenvolvimento. Lonergan introduziu o paradigma da inovação de Schumpeter como factor de crescimento acentuando a importância da produção de bens finais (e bens “overhead” que distinguem a super-estrutura cultural da sociedade) e o seu somatório e relação como o único factor de crescimento, onde as propriedades emergentes (probabilidades) do processo se tornam factores endógenos do mesmo, impulsionando a economia e a cultura tornando os seus habitantes maior consciência do processo.

Longe vão os tempos onde o pensamento escolástico dominava a reflexão económica, mas a predominância do que existe sobre o potencial tornou a reflexão sobre este tema desactualizada e vulnerável perante um mundo que se expandia geográficamente impedindo e falindo a relação orgânica que permeava as sociedades do sec XVIII. A explosão de nacionalismos republicanos na Europa durante o sexc XIX pôs em evidência as falhas do Liberalismo, a livre circulação de capitais era o carvão que alimentava todo o tipo de movimentos de acção terrorista (de génese questionável e ambições deslocadas) e foram um dos primeiros factores a impedir o desenvolvimento potencial da Europa continental, a fuga do Papa Pio IX de Roma (1849) e a sua proclamação como República por “combatentes da liberdade” liderados por Guiuseppe Mazzini a par com a  liquidação dos Estados Papais (questão Romana, 1861) afastaram os católicos da luta política.  Em 1864 Pio IX publicaria a “Quanta Cura” (uma crítica ao Liberalismo) anexada por um Syllabus com a descrição dos erros que não mereciam perdão. Em 1870 o Concílio Vaticano I criticaria todos os fundamentos da nova ordem económica, 1891 o Rerum Novarum surgiria como um manifesto de acção política para os católicos. o Enfoque no combate ao movimentos nacionalistas na sua base de apoio em deterimento de os compreender como consequência de um modelo económico desajustado da realidade faria perder o palco do debate. O Liberalismo com as suas noções de equilibrio automático, perseguição individual do lucro e livre circulação de capitais durariam até à década de 30, a qual veria outra corrente de liberalismo: Liberalismo limitado (embedded Liberalism) com o surgimento de Keynes.

Liberalismo limitado

O termo “embedded Liberalism” tem o seu baptismo em 1982 (irónicamente 2 anos depois de ter sido suplantado pelo Neo-Liberalismo) por John Gerard Rugie . Ruggie escreveria que teria copiado a expressão de Karl Polanyi . O periodo de 1944 até 1980 , a era de ouro da economia, era uma reacção das sociedade às ineficiências do liberalismo. Para Keynes os Estados não podiam ausentar-se das consequências para a sociedade de um mercado desregulado.

Karl Polanyi defendia que a transição da economia de base liberal para uma de embedded liberalism seria apenas uma fase de um ciclo que teria as raízes na Revolução Industrial. Para Polanyi até ao sec XIX os mercados estaria embebidos nas sociedades onde operavam, subordinados às: relações sociais, Instituições religiosas, tradições de reciprocidade e distribuição de recursos. Mercados eram meios pelos quais relações sociais eram exprimidas, não sendo fins em si próprios .A conceptualização clássica de Adam Smith era uma resposta filosófica a este principío, as sociedades humanas deveriam estar subordinadas ao mercado. Esta crença de que os mercados são auto regulados e existem fora do tecido social espalharam-se rapidamente e pela primeira vez na História os mercados seriam entidades separadas da sociedade e com primazia sobre estas. Polanyi identifica a transição em 1844 com legislação (“laws relating to poor” 1944, do movimento anti-pobreza de 1934 até 44) a regular bens que até aí não eram considerados bens (pessoas, terra e dinheiro) . Polanyi considerava que transforma-las em bens conduziria as sociedades ao abismo.

“labour is another name for human activity, which goes with life itself, which in its turn is not produced for sale but for entirely diferent reaosns, nor can that activity be detached from the rest of life, be stored or mobilized (…) None of them [labour, land, money] is produced for sale” Karl Polanyi, The Great Transformation

Para Polanyi a comodificação da vida era não só uma utopia como impossivel porque as sociedades reagiriam num processo baptizado como “duplo movimento”. Lonergan recorreria à mesma explicação para explicar o surgimento do Fascismo como uma reacção natural da sociedade e introduziria-o no modelo económico ao nível da aceleração de industrias face a inovação, a probabilidade emergente no sentido restrito que North Withehead como localizadas e dependentes do momento (conceito inovador em economia porque invalida considerações gerais a partir de um conjunto de dados isolados no tempo e invalida o princípio da causalidade)

A crise de 1929 explica-se resumidamente com Lonergan, como uma questão de ignorância dos agentes. Um mercado não-regulado onde as expectativas sobre o futuro estão assentes nas expectativas individuais dos agente, que em larga escala se reduzem a infinitas expressões individuais de hedonismo. Dois economistas influenciariam Lonergan, Schumpeter e Heinrich Pesch, duas expressões da crítica à Grande Teoria que se propunha a ser o modelo universal do funcionamento da Economia, Lonergan tenta a actualização do último com o conceito de inovação como motor de crescimento prescindindo da dialéctica como método explicativo em favor de modelos matemáticos que explicassem com maior aproximação a realidade económica, processo que Lonergan haveria de abandonar nos últimos anos retornando ao processo dedutivo.

A emergência da análise matemática nos modelos económicos é consequência directa da escala e natureza dos mercados, especialmente dos mercados que dependem de um equilíbrio entre oferta e procura, se wall Street hoje é apenas uma sala para entrevistas e exposição porque todas as operações dependem de algoritmos processados por supercomputadores em armazéns ligados por fibra óptica por forma a minimizar o equilíbrio de compra e venda ao milésimo de segundo, a 24 de Outubro de 1929 as ordens de compra e venda estavam distanciadas em várias horas e esta é a razão mais comum para justificar o “Crash”. Economistas mais sérios afirmariam que se tratou de uma desregulação do mercado financeiro largamente provocada por um governo (EUA) que geria um orçamento excedentário provocado entre os agentes a procura da moeda ,retida nos cofres federais , junto do sector financeiro que cobraria taxas de juro superiores à taxa de crescimento real da Economia. Keynes viu este fenómeno como um problema de queda na procura (gastos das famílias).

Entre as três perspectivas sobre a queda de 1929 os governos optariam pela contenção dos movimentos sociais, mas se esta abordagem demoraria até 1944 entre os governos o Vaticano anteciparia-se com a carta enciclíca Quadragésimo Anno (40 anos sobre a Rerum Novarum) , a qual teria como inspiração o pensamento de Pesch (influência que perduraria até João Paulo II) . É nesta linha directa de pensamento que o trabalho de Lonergan em 1942 no “For a New Political Economy” e o “An Essay in circulation analysis” de 1944 pode ser entendido :

“necessidade de ter um elaborada conceptualização para o seu estudo [das ciências humanas] similar ao que a matemática disponibiliza para a Física” Lonergan , Tópicos em educação

 Neo-Liberalismo

 

 

Conclusão

A relevância actual de Lonergan é dificil de medir, se por um lado não houve um seguimento do seu trabalho por outros investigadores na área, por outro a década de 80 formou a escola austriaca como modelo a seguir pela elite política e académica .Apesar da predominância dos neo-clássicos nos livros de texto e programas curriculares são os seguidores de Hayek e Friedman que colhem as maiores verbas e prémios nobél, caso que permanece apesar da falência dos seus modelos com a crise de 2008. Apesar do modelo de Lonergan ser , nos seus fundamentos,uma revisita ao mercantilismo de Colbert, é antes disso uma actualização do paradigma económico que reflecte sobre as limitações conceptuais do liberalismo que prejudicam o funcionamento de um mercado onde os seus agentes podem procurar o equilíbrio com a devida liberdade de um Estado planificador e tendencialmente autocrático. A aceitação do Liberalismo tão criticado pelos católicos durante o sec XIX e dos fundamento delineados por Smith advém do facto de no essencial (sem prejuízo das motivações políticas de Estado que o fundamentaram) ser uma crítica à economia de renda massificada pela França de Luís XIV, uma actualização do feudalismo.

A sua relevância enquanto base de trabalho para actualizações futuras advém da realidade histórica de o Liberalismo não ter eliminado a Economia de Renda e o trabalho recente de Thomas Piketty é apenas uma constatação de que a acumulação de riqueza gera distorções que corroem o tecido social de uma sociedade, não por razões de classe social ou perseguição da acumulação de riqueza mas porque a forma como riqueza é gerada e mantida é um factor determinante (apesar de desconsiderado nos modelos económicos até há pouco tempo) na coerência entre a realidade e o modelo económico. Se os “economistas” da Europa medieval se preocupavam com o fenómeno de o juro ultrapassar o capital ou os Assírios publicavam periodicamente perdões de dívida, o paradigma romano de tornar infinita a capitalização de juro tornou-se uma externalidade que fragilizou um Império sempre à beira da Guerra cívil e mais tarde um valor cultural que esticava sempre a quantidade de riqueza gerada superior à quantidade de bens e serviços produzidos, estivessem estes representados em ouro ,pimenta, prata ou dollares. Não é por acaso que Lonergan dá absoluta primazia à educação e conhecimento como modeladores das expectativas de uma sociedade .

A Crise de 2008 e o programa de resgate do sector financeiro, 3 vezes superior ao New Deal em termos monetários e várias vezes superior em escala geográfica veio trazer a público a falência , não dos modelos mas, do paradigma e das permissas que sustentam a acção dos agentes económicos, sejam eles indivíduos ou governos . Lonergan tinha razão, os bens públicos (como educação) não acrescentam valor concreto a uma sociedade que não tem as industrias onde utilizar essa mão de obra especializada, a sua exportação a custo zero para economias mais fortes é a súmula do pensamento de Adam Smith sobre como impedir uma economia de evoluir sob a ilusão de que está mais rica. A Europa reexporta e mantém o seu nível de vida sobre produtos importados da China a custo muito reduzido (porque subvencionado pelo Governo ) e esquece que os marcadores que escrevem equações diferenciais para milhares de jovens ávidos de qualificação , ninguém sabe ou tem a estrutura para a fabricar no País

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Intervenção de D Duarte de Bragança no Ciclo de Conferências da Madeira ao Mundo: 600 Anos de Globalização

Intervenção de Sua Alteza Real o Senhor Dom Duarte no Ciclo de Conferências da Madeira ao Mundo: 600 Anos de Globalização, no dia 2 de Novembro em Porto Santo.
card_dom_duarte

“As Comunidades Luso-descendentes da Ásia e a sua ligação à Diocese do Funchal”.

«Fiquei muito sensibilizado com o convite para participar no acontecimento de tão grande importância simbólica na História de Portugal.

Vir falar à terra onde começou a epopeia das Descobertas e a primeira grande globalização cultural, é de uma enorme responsabilidade.

Seria pretensioso da minha parte concorrer com ilustres historiadores e especialistas aqui presentes e, por isso, limitar-me-ei a tecer umas considerações derivadas da minha experiência pessoal adquirida com os contactos que fiz com as populações luso-descendentes por esse mundo fora.

A Fundação Dom Manuel II, de que sou Presidente, vem acompanhando comunidades minoritárias de luso-descendentes, em especial na sua dimensão cultural e na preservação e promoção da sua matriz identitária.

Tive oportunidade de visitar algumas destas comunidades e de receber o apoio pioneiro de entidades, como a Presidência da Região Autónoma da Madeira, no apoio à Comunidade luso-descendente de Malaca.

Estou firmemente convencido de que tem sido particularmente clara a solidariedade desta Região Autónoma em relação aos seus núcleos de emigrantes, também eles comunidades minoritárias, bastando recordar os casos da África do Sul e, mais recentemente, os angustiados milhares de Madeirenses radicados na Venezuela.

O convite que me endereçaram para conversar convosco neste Ciclo de Conferências Da Madeira ao Mundo: 600 Anos de Globalização permite-me ajudar-vos a recordar que esta ligação, e esta atenta solidariedade, (que talvez não constituam uma regra geral na conjuntura presente), se encontra inscrita na génese, e no ADN histórico da Madeira.

Nunca deixou de ser actual, mas neste preciso momento torna-se particularmente urgente reflectir sobre os ciclos de luta pela preponderância que têm vindo a caracterizar as relações entre as chamadas religiões do Livro.

Recuando seis séculos, os responsáveis pela expansão portuguesa do séc. XV, e seguintes, mostraram estar conscientes de que as suas explorações estavam a alargar o espaço cristão, criando condições para que a nossa Fé se espalhasse para lá das fronteiras anteriormente estabelecidas, e chegasse efectivamente a todo o mundo conhecido e ao mundo por conhecer, seguindo a doutrina do Quinto Império ou Império do Divino Espírito Santo.

É curioso verificar que esta actividade se enquadrava em geral naquilo que se pode denominar como Teologia da Cristandade, que perdurou em parte até ao séc. XX, e em conformidade com a qual a acção missionária visava, acima de tudo, a aculturação, a superação de outras crenças e formas de vida, para que aceitassem o modelo ocidental.

Os madeirenses participaram no povoamento das ilhas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, cujas igrejas dependiam inicialmente da diocese do Funchal, e estes arquipélagos vão servir de ponto de apoio às viagens de comerciantes e missionárias para a costa do Brasil e no caminho marítimo para a Índia.

A evangelização centra-se mais na edificação de igrejas, onde se instalaram colonos portugueses, do que em promover a conversão dos muçulmanos ou outros africanos.

Só a reforma interna da Igreja, após o Concílio de Trento (1545-1563), e a actividade da Companhia de Jesus lançaram uma acção missionária orgânica e sistemática, com novos modelos de evangelização.

A Diocese madeirense acabaria por ser criada numa fase de transformação de atitudes e mentalidades, quando sociedades fechadas começaram a viver uma aventura global, nas caravelas da expansão marítima.

A este respeito, os portugueses, pioneiros nas descobertas, distinguiram-se da coroa castelhana, que optou pelo que se poderia designar como dioceses de conquista, ligadas à ocupação do território das Américas.

Já o desenvolvimento de uma estrutura diocesana nas áreas submetidas ao império português foi-se processando de acordo com o ritmo da própria evangelização.

Foi precisamente no quadro do confronto com o Islão, motivado pelo domínio do espaço mediterrânico, que D. João I escreveu ao Papa em 1418, solicitando-lhe uma bula de cruzada para todo os que desejassem coadjuvá-lo na prossecução da luta contra os “infiéis”, e em Abril desse mesmo ano Martinho V emitiu três bulas. Numa delas, a Rex Regum, determinava o reconhecimento implícito para Portugal da praça de Ceuta, bem como das outras povoações e territórios que se viessem a tomar.

Confirmavam-se deste modo as pretensões lusas de prosseguir as conquistas no norte de África, ao mesmo que confirmava juridicamente a conquista. Estes sucessos políticos e militares ficaram a dever-se aos filhos de D. João I e da Princesa Inglesa Filipa de Lencastre, que hoje são conhecidos pela Ínclita Geração.

A Rainha D. Filipa deu muita importância à formação cultural dos seus Filhos, e todos eles foram, de facto, personalidades notáveis na Europa da época.

O Infante Dom Henrique foi o primeiro responsável político pela Região. O primeiro Governo do Funchal, depois da recente autonomia teve a muito feliz iniciativa de pôr a cruz da Ordem de Cristo na bela bandeira regional, por ser o Infante D. Henrique o Grão-mestre desta Ordem, directamente sucessora da Ordem dos Templários.

Já nas zonas descobertas, particularmente onde não se verificava a presença islâmica, o título de posse, concedido pela autoridade da Santa Sé, associou-se a uma obrigação explícita de se proceder a uma missionação efectiva. Na prática, a missionação cristã iria justificar a presença e a acção daquilo que hoje em dia costuma designar-se como potência colonizadora.

Tendo presente a prioridade da descoberta da Madeira o poder régio surgia assim ligado à missionação, sendo-lhe confiada a evangelização das novas terras descobertas a partir deste arquipélago, que passava a representar uma porta aberta para a Europa sobre um mundo novo, com jurisdição sobre todos os territórios descobertos pelos portugueses além-mar ao longo da costa africana até ao Oriente, englobando depois o Brasil.

Desde o início do povoamento, a Igreja Católica na Madeira actuou num clima missionário, que se foi actualizando ao longo dos tempos. Mais concretamente estabelecendo uma ponte entre a comunidade recém-instalada, aqueles que partem e os que passam, oferecendo à cristandade global um novo enquadramento geográfico e espiritual.

O arquipélago converteu-se num ponto de escala e abastecimento no corredor atlântico. E concomitantemente afirmou-se como polo de difusão e estruturação do Cristianismo no mundo ultramarino.

Estas valências desenvolveram-se a partir de uma sociedade cristã que trouxe para a Madeira as suas tradições do continente, embora seja forçoso reconhecer, que as suas características ganharam uma configuração singular por força das condições do território e do esforço pioneiro de construir de raiz uma sociedade nova.

A preocupação missionária surge desde o primeiro momento, como atesta o Elucidário Madeirense ao falar de Gonçalo Anes ou Gonçalo Anes de Velosa, fundador da igreja de São Bartolomeu, junto da qual instituiu um hospício para clérigos pobres, que como se pode depreender, servia para alojamento dos missionários que paravam na Madeira e se dirigiam para a Índia e para o Brasil.

Talvez não tenha sido por mera coincidência que os jesuítas se vieram a instalar em 1570 nesta casa e igreja.

Quem viu o filme, ou leu o romance, “A Missão” não pode deixar de ficar emocionado ao perceber a técnica seguida pelos Jesuítas de integrarem o Cristianismo nas culturas locais, ao contrário de outros missionários que se esforçaram por alterar profundamente as culturas dos povos que iam cristianizando. Na China, Japão e Índia os sacerdotes Jesuítas vestiam-se com trajes de religiosos locais, além e integrarem outros elementos culturais, tendo até dado origem a queixas de autoridades católica. (Foi o caso controvérsia dos “ritos chineses” que foi utlizada como uma das razões mais invocadas para a extinção da Companhia de Jesus no século XVIII).

Em Goa os Jesuítas criaram um instituto universitário dependente da Universidade de Évora e institutos de ensino superior surgiram por sua iniciativa em várias regiões do ultramar português, como por exemplo, em Angola, Brasil, em São Paulo, e na região de Tête em Moçambique.

Imaginem o que seria o desenvolvimento cultural desses países hoje se esta extraordinária obra não tivesse sido brutalmente interrompida pelo fanatismo político pombalino.

A mentalidade do “despotismo iluminado” apoiado no “absolutismo real” do tempo de D. José I ainda hoje é glorificada nos livros de História de todo o mundo e o Marquês de Pombal foi homenageado com o maior monumento produzido pela 1ª república portuguesa.

Quem visitou o Pavilhão de Portugal na Expo 98 fica com a imagem de que no fim toda a obra portuguesa naufragou. No entanto, quem se der ao trabalho de procurar as Comunidades Luso-descendentes na Ásia ficará impressionado com a força das memórias portuguesas que por lá encontra.

Eu visitei com a minha família a Comunidade “Portuguesa” de Banguecoque, onde cerca de 20 mil pessoas se afirmam luso-descendentes, são católicos e têm um grande prestígio social.

A principal Igreja que merece ser visitada por quem lá for é a Igreja da Conceição, no antigo Bairro Português, obviamente junto ao Rio, por onde chegavam as naus portuguesas. Eu visitei esta Comunidade em 2017, por ocasião da nossa oferta da imagem da Imaculada Conceição à Paróquia do mesmo nome.

Na Birmânia, hoje chamada Myanmar, há sete pequenas cidades predominantemente de descendentes de portugueses, conhecido como Bayingyis.

Foram como militares, mas ao contrário do que sucedeu na Tailândia, antigo Reino do Sião, – onde os Portugueses durante gerações organizavam as forças armadas locais, conhecidos especialmente como sendo os melhores artilheiros, – são hoje agricultores, com algumas excepções, como é o caso do actual Cardeal de Ragun.

No Sri Lanka, antigo Ceilão, uma comunidade de cerca de 40 mil pessoas é descendente de Portugueses, os chamados os Portuguese Burghers, que adoptaram nomes de família portugueses quando os antepassados se converteram ao Catolicismo. A minha Mulher e eu esperamos visitar esta Comunidade no próximo ano.

A presença dos Luso descendentes na Ásia também é muito forte em Goa, Damão, Diu, Macau. Mas o caso mais curioso é o da pequena comunidade do Bairro Português de Malaca, Kampung Portugis, que sobreviveu à violenta ocupação holandesa, mantendo sempre a sua fé e a sua ligação cultural e afectiva a Portugal.

Eu visitei esta comunidade em 2015, para entregar, em nome da Fundação D. Manuel II, um sino em bronze, para substituir um mais antigo da Praça principal que se tinha quebrado.

E foi precisamente no Bairro Português de Malaca que em 2016 se realizou a a 1ª Conferência das Comunidades Luso-asiáticas, na qual a Fundação D. Manuel II está representada»

 

(https://fundacaodommanuel2.wordpress.com/).

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Passagem de SAR D Duarte Nuno na Guiné-Bissau em 1942 a caminho do Brasil

A passagem do Duque de Bragança, D. Duarte Nuno, por Bolama, a caminho do Rio de Janeiro,  Brasil, onde iria casar com D. Maria Francisca de Orleans

duarte1

D Duarte Nuno ao centro com os filhos e esposa

, dá-se pormenor sobre mobiliário, faqueiro e baixela e até dos passeios de D. Duarte Nuno pela ilha de Bolama a 9 de Junho de 1942, com absoluta discrição do Ministro das Colónias e do Governador da Guiné foi acolhido nas instalações do BNU de Bolama, houve que trazer faqueiro, móveis e tapetes de Bissau.

BNU_Bolama

 

mbs3mbs4

fonte:https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2018/11/guine-6174-p19161-notas-de-leitura-1116.html

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Antonio Tajani: A Monarquia é o regime mais próximo da Ideia de uma Europa unida

” Os países que mais se aproximam da ideia europeia são indubitavelmente as monarquias (…) a ideia monárquica permanece uma causa justa que deve ser defendida” António Tajani, Presidente do Parlamento Europeu

45325102_468233680366440_4573644397870055424_n

Para o europeu mais atento a afirmação não vem como uma surpresa já que Tajani foi militante monárquico na sua juventude na Fronte Monarchico Giovanile (Frente Monárquica da Juventude), uma organização estudantil da União Monárquica Italiana (UMI). Ele tem consistentemente defendido o retorno do exílio da Casa de Sabóia (que foi proibida pela Constituição italiana até 2002, quando o parlamento italiano suspendeu a proibição).Político de direita, considerado o anti-schulz (dirigente da esquerda alemã e anterior Presidente do Parlamento europeu), fez parte do governo de Berlusconi e até há bem pouco tempo era um simpatizante de Matteo Salvini, a voz populista de um governo que pretende levar Itália pelos mesmos caminhos da Grécia. Era! , porque o orçamento recentemente proposto pelo governo italiano acordou os italianos dentro de Bruxelas para a verdadeira natureza do verdadeiro populismo republicano que tem crescido entre os países mais desenvolvidos.

A intervenção de Tajani na conferência monárquica que comemorava o centenário da vitória de Itália na I Grande Guerra, para a qual nem era esperado, não foi fortuita nem podia ser, já que o cargo que ocupa impede-o de ter liberdade de opinião em eventos formais , o Protocolo assim o exige . A intervenção moderada onde a par da defesa da Monarquia como regime que entende a ideia europeia ,ágora de encontro entre as diversidades ideológicas de uma Europa onde convivem Monarquias e Repúblicas vem o afastamento dos políticos mais tradicionais ao populismo anti-europeu que ameaça arrasar Nações inteiras :

“Antonio Tajani, cuja contribuição de abertura confirmou a contribuição vital da Monarquia da Itália para a Vitória da qual o Centenário foi celebrado, abrindo então a visão geral sobre a Europa, uma Europa dos Povos onde as monarquias existem e não são poucas e os senadores da República, republicanos, mas vizinhos nas iniciativas patrióticas” Associazione Culturale Ricerche e Memorie Storiche

Roma3novembrejpg

Para os populistas o País vem depois da carreira política , ideia partilhada por todos os que viveram a demagogia do nazismo e esquecida pelos que a seguir vieram.A Grécia não foi salva por um demagogo, tudo o que podia correr mal no Brexit aconteceu em nome das carreiras políticas pessoais , Espanha por pouco não se fragmentou, a Itália corre o risco de falência . Tajano desce das luzes de Bruxelas para apelar aos sectores tradicionais italianos que a Europa das Nações e Monarquia são de facto faces da mesma moeda e que a distância entre republicanos e monárquicos desaparece em face da ameaça de colapso dos países  .

Posted in Uncategorized | Leave a comment

600 anos do achamento da Madeira, conferência

Terminou hoje no Porto Santo, a conferência ‘Da Madeira ao Mundo – 600 anos Globalização’, organizada pela Comissão dos 600 anos e que trouxe à ilha dourada conferencistas de renome, como D. Duarte de Bragança com a intervenção “as comunidades luso descendentes da Ásia e sua ligação à diocese do Funchal”, Rui Carita, Teresa Nascimento e Helena Rebelo, entre outros, para debater a Madeira e o Porto Santo, ilhas que foram e continuam a ser importantes para o mundo.

45039263_1915292741885372_4462806917051318272_n

45122149_1915291165218863_6946927378702532608_n

Ciclo de conferências sobre os 600 anos chega ao fim depois de dois dias de debate no Porto Santo.Varias personalidades ligadas ao mundo da história, como professores, historiadores e especialistas na área das descobertas, estiveram no Porto Santo a discutir temas subordinados à temática da globalização, realçando, neste enquadramento, o papel que a Região desempenhou na expansão marítima portuguesa, nos séculos XV e XVI.
Com a temática “Da Madeira ao Mundo: 600 Anos de Globalização”, esta Conferência, organizada em parceria com a Universidade da Madeira.

45431031_1965580300156024_5718335516777119744_n45355471_1965583333489054_7830459162885619712_n

Guilherme Silva, preside da Comissão, fez um balanço “positivo” desta iniciativa e salientou a importância de trazer os melhores oradores para, em conjunto, “reflectirmos sobre as várias vertentes sobre o que foram realmente os descobrimentos e toda a elevação feita em várias áreas, como o contacto com as varias culturas, de forma a compreendermos o crescimento de todo este universo, pelas varias intervenções feitas nesta conferencia”.

45143743_2215234862099387_7875711346338168832_n

D Duarte de Bragança com a autora Lívia Borges

 

fonte:Dnotícias.pt: Real Associação da Madeira

 

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Brazil, A Return to Monarchy or a deepenig of the Republic

Luiz Philippe de Orléans and Bragança, elected Republican deputy for the PSL party, made a statement on the program “The Backstage of Power” of the Radio Bandeirantes Radio, on October 19, 2018, according to which there is now a group of “activists “Linked to the Brazil’s President ,Jair Bolsonaro and the leadership of Mourão preparing a new constitution for Brazil

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Uma nova Constituição para o Brasil?

Luiz Philippe de Orléans e Bragança, eleito deputado republicano pelo partido PSL , fez uma declaração no programa “Os Bastidores do Poder” da Rede Bandeirantes de Rádio, no dia 19 de Outubro de 2018, segundo a qual há neste momento um grupo de “ativistas” ligados à candidatura de Jair Bolsonaro e à liderança de Mourão preparando uma nova constituição para o Brasil.

Posted in Uncategorized | Leave a comment